Além disso, ao lado de Minom Pinho, produtora executiva do NETLABTV, e da roteirista Manuela Bernardi, ele participou do lançamento do projeto no Rio na última terça 03 de outubro e também em Recife no dia 6 de outubro.

Nas oficinas, que aconteceram no Rio em 4 e 5 de outubro (quarta e quinta) e em Recife em 7 e 8 de outubro (sábado e domingo), Aleksei  tratou, entre outros temas, dos Princípios de Dramaturgia. Para ele, o Brasil possui uma herança forte que vem da telenovela e do Cinema Novo e é preciso estudar e dominar a técnica da narrativa clássica para se criar séries que sigam esta tradição ou que tragam inovações de formato e gênero.

“Se quisermos quebrar o paradigma clássico, que o rompimento seja feito com consciência”, comenta ele, que tem entre seus principais trabalhos, os roteiros de A Via Láctea (que competiu na 46ª Semana da Crítica do Festival de Cinema de Cannes); do documentário O Último Kwarup Branco (Menção Honrosa no DOCSDF – Festival Internacional de Documentários da Cidade do México) e da novela Água na Boca, da TV Bandeirantes.

Além disso, Aleksei é um dos consultores de roteiro mais prestigiados do Brasil.  Atento ao fato de que o trabalho de criar uma narrativa consistente também passa pelo documentário, ele já foi script-doctor do longa Elena, de Petra costa, que foi pré –indicado ao OSCAR, 2015 e eleito o melhor documentário do 35º Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano de Havana em 2013.

Entre as ficções para o cinema, Aleksei assina o script doctoring de De Menor, de Caru Alves de Souza, que levou o prêmio de melhor filme no  Festival do Rio  2013; O Último Cine Drive-In (Prêmio da Critica, Festival de Gramado, 2015 e Prêmio NETFLIX, 2016); além do blockbuster Mais Forte que o Mundo, entre outros.

Ele também foi consultor de 2009 a 2013 do Laboratório de Roteiros do Sesc (antigo Sundance), e instrutor de roteiros para a Rede Globo no programa Profissão Repórter, do jornalista Caco Barcellos. É um dos  autores do livro “Profissão Repórter”, da Editora Planeta, em colaboração com a Rede Globo.

Para Aleksei, que há quase duas décadas ministra cursos e oficinas de roteiro, o Brasil avançou muito tanto no ensino da dramaturgia para o audiovisual quanto na criação de roteiros, mas fundamentos da narrativa clássica ainda devem ser mais aprofundados por muitos dos que querem ingressar e progredir na carreira de roteirista.

“A gente pode chegar em um lugar muito próximo do que os americanos fazem nas séries. Foi o que já fizemos na novela, no Cinema Novo e que fizemos em alguns filmes comerciais. Temos total capacidade de continuar nosso trabalho de formação, de técnica e chegar ao mesmo patamar que a indústria americana audiovisual chegou”, declara o roteirista, que atualmente também é professor convidado de roteiro da EICTV, Escuela Internacional de San Antonio de los Banos,  em Cuba.

Sobre os fundamentos do roteiro, a importância de se construir uma boa narrativa e as formas de se conhecer o clássico para poder inovar com consistência, Aleksei conversou com o Blog Inspire-se. Confira:

Que elementos cruciais do roteiro você trata nas oficinas que ministra durante o NETLABTV e também em suas aulas?

É importante falar dos Princípios de Dramaturgia. O que vi estes anos todos e ainda continuo vendo? Que muitas pessoas não sabem o que é tecnicamente uma história. Uma história tem o famoso começo+meio+fim, o tal arco dramático, com personagem, objetivo, obstáculo e transformação. E quando se fala em transformação, as pessoas em geral só entendem quando vêem isso na prática. E aí como a gente tem o DNA audiovisual baseado na telenovela, temos muita dificuldade de contar uma história em que haja a transformação final do personagem. Todos acham que entenderam, mas muitos não entendem.

E o que é esta transformação final?

É aquela que define o arco do personagem na história. Esta transformação não se vê na novela, em que isso não acontece na grande maioria das vezes. Na novela, tem um gancho depois do outro para que haja um outro gancho no dia seguinte. E isso dura meses. Já na série é preciso terminar uma história no episódio. E isso a gente ainda não sabe fazer tão bem como os americanos sabem, por exemplo.

Este é certamente um ponto importante que precisa ser desenvolvido pelos roteiristas de séries brasileiros.

Exatamente. É um ponto de desenvolvimento porque é um fundamento da dramaturgia do audiovisual que estamos avançando. É preciso pensar que além da novela, nosso DNA também está, no cinema, calcado no Cinema Novo. Estes são os dois pontos em que chegamos mais longe no audiovisual. E nenhum dos dois fecha o arco dramático. Isso tem a ver com nossa cultura, que é uma cultura barroca. Não há um formato melhor ou pior porque não cabe aqui um juízo de valor. São formas diferentes de se contar histórias.

A questão é que as narrativas da novela e do Cinema Novo são muito diferentes das séries e do cinema clássico.

Sim. E é por isso que sempre começo minhas oficinas e aulas falando disso. Para que a  gente entenda de fato a transformação final, que é o que fecha o arco dramático. Isso pensando no paradigma clássico, que é o usado na maioria das séries americanas. E se quisermos romper com isso, que o rompimento seja feito com consciência. A novela e o Cinema Novo não tem o compromisso de fechar o arco dramático. A novela tem até isso, mas a longo dos meses que dura e não em cada capítulo. E se a gente não tem esta consciência, acabamos não criando uma história no sentido técnico, ou clássico. Ou seja, não fechamos o arco em um episódio. E é isso que faz com que nossas séries ainda não sejam, do ponto de vista dramático, como as séries americanas.

E isso porque a história da dramaturgia audiovisual nos Estados Unidos tem uma origem diferente da brasileira.

Sim. A história e a cultura deles levou a este caminho, que vem do teatro russo, que foi para lá durante a Segunda Guerra Mundial. Os russos têm uma tradição narrativa super forte e os americanos levaram isso para o audiovisual. E eles usam muito bem o paradigma clássico, que faz parte da cultura deles. É importante começar entendendo isso para se avançar. Tanto para fazer algo diferente. Sem ter este domínio, não funciona. Muitas vezes as pessoas nem sabem que não estão contando uma história.

Brasileiro tem, como você observou, muita tradição e potência nas telenovelas. Você acha que vamos conseguir desenvolver a mesma potência para séries de TV?

Vamos. Foi o que já fizemos na novela, no Cinema Novo e que fizemos em alguns filmes comerciais. Temos total capacidade de continuar nosso trabalho de formação, de técnica e chegar ao mesmo patamar que a indústria americana audiovisual chegou. Mas do nosso jeito, sem perder nossa identidade.

Há alguma série nacional que você cita como um bom exemplo de domínio da narrativa clássica mas com caráter brasileiro?

A Grande Família é, para mim, a grande série brasileira. Ela tem todos os elementos clássicos. Tem uma história a cada episódio, tem os núcleos, ou grupos de personagens, cada um tem equivalência dramática, quando um personagem é o protagonista da ‘história do dia’ os outros viram secundários da história dele. É um sitcom à brasileira. É um grande exemplo. Também gosto muito das séries criadas e/ou escritas e dirigidas pelo Jorge Furtado, como Decamerão – A Comédia do Sexo, Clandestinos, A Mulher Invisível, Doce de Mãe, entre várias outras.

Receba NossasNovidades