Conhecer os elementos de um projeto de série, desde os mais básicos até os mais complexos, é essencial para a compreensão da ideia e da proposta de uma série. O domínio dos elementos necessários à construção de um projeto sólido de série é fundamental, tanto no gênero ficção quanto não ficção.

Pensando nisso, o Blog Inspire-se lança uma editoria especial, que traz não só as definições de cada elemento de um projeto de série como também a visão de profissionais renomados sobre os conceitos e elementos que compõe a bíblia de uma série.

Abrimos a edição especial com um dos elementos mais controversos de uma projeto audiovisual _ a sinopse.

Para abordar a importância, função e aplicação da sinopse, conversarmos com Julia Priolli, roteirista e script doctor para a Fox International Channels, Aleksei Abib, roteirista, script doctor e diretor, e Heitor Dhalia, diretor e roteirista.

Confira o conceito:

SINOPSE: É um resumo, um relato breve e objetivo da trama onde são apresentados as personagens e os conflitos.

Confira a visão dos especialistas sobre a sinopse:   

Julia Priolli – Roteirista e script doctor para a Fox International Channels

“Em um longa-metragem, a sinopse é crucial. Já para uma série, ela é importante, mas não necessariamente da mesma forma. Para um longa, a sequência dos elementos vai ser sempre: log line, sinopse, argumento, escaleta e roteiro.

Na log line, você resume seu projeto em uma linha. Ela pode ser ser uma tag line, quando vai além do resumo em uma linha. E pode vender o projeto. Já a sinopse é o resumo de seu projeto, em que não se desenvolvem muito todas as camadas dos personagens, sobretudo do protagonista. Não é preciso dar a dimensão privada dele, mas sim dizer basicamente o enredo, o plot e a transformação do personagem.

Na série, este processo não é tão determinante porque pode-se ter uma sinopse que seja uma apresentação mais geral. Mas o que é esta apresentação? É a premissa. Tendo a premissa bem embasada, pode-se optar por ter uma sinopse de toda a temporada e outras sinopses de cada episódio. É muito importante ter uma boa sinopse de cada episódio. Mas acredito que ter uma boa premissa é o mais importante.

Vale também dizer que, em séries, uma sinopse é mais baseada no plot e não tanto na jornada do personagem. Então, ela é o que vai acontecer com o enredo. Qual a história que vai ser contada? Se a sinopse é toda baseada no personagem, um bom exemplo é a de Breaking Bad: ‘Um professor de química, que sempre foi frustrado, infeliz, que foi humilhado a vida toda, e que de repente descobre que tem câncer e decide fabricar meta-anfetamina para sustentar a família.’ Perceba que isso é praticamente também a premissa da série.

Por tudo isso, para vender uma série, você tem que pensar muito bem a sua premissa e tem que pensar em uma ótima apresentação.” 

Aleksei Abib – roteirista, script doctor e diretor

Quando me perguntam qual é a primeira coisa em que penso para um roteiro, digo sempre que varia. Às vezes estou andando na rua e tenho uma ideia. Ela pode vir de várias formas, mas em algum momento vou ter de sistematizar. Pode-se planejar antes e depois deixar vir o caos. Ou deixar vir o caos e depois planejar. A ordem não importa. O que importa é que este trabalho vai ter que ser organizado para poder ser apresentado. E isso vale especialmente para séries. Não adianta eu abordar alguém com uma ideia incrível que tive no elevador se não consigo contar esta ideia rapidamente, os famosos dois ou três minutos de um pitching.

E este início é a sinopse. Eu quando vou começar a sistematizar, faço a Sinopse do Autor, que é a minha sinopse. Vou saber tudo, qual é o meu arco dramático, vou contar tudo. Mesmo que seja uma série em que não quero contar o final ou não saiba ainda. Mas, mesmo assim, já escrevo ali uma solução. Exemplo: O Walter White vai ficar com a família ou vai ficar com o tráfico? Eu tenho que escrever o que ele faz no final. Para depois saber o que vou deixar em aberto, o que vou contar, se não vou, e porque. Há sempre um motivo. E este motivo tem de estar claro no conflito do personagem. O ponto de partida é este. Se ele vai ou não ficar com a família, por que eu não vou revelar? Porque nem ele mesmo não sabe.

Sendo assim, se eu contar, estrago tudo que construí para meu personagem. No entanto eu, autor, tenho que saber o que ele vai fazer no final até para decidir como eu vou revelar aquilo, que eu já sei, mas meu personagem e o público não sabem. Então, eu começo com esta Sinopse do Autor.

Mas esta não é a sinopse que vou apresentar para uma produtora ou um canal. Para eles, vou apresentar a Sinopse Básica, de cinco linhas.

Esta sinopse, que vai ser apresentada, tem as questões essenciais da narrativa, com, obviamente, o tema, alguma característica do protagonista e o conflito central. Quando se chega a este documento inicial é porque já se trabalhou muito. Isso porque, para chegar na essência, é preciso construir muita coisa antes.

Dentro do processo, qualquer que seja, o ideal é sistematizar tudo de maneira essencial. Além da sinopse, também ter um resumo dos principais personagens em quatro ou cinco linhas.

A Sinopse Básica não é um resumo da trama, mas a Sinopse do Autor é. Saber esta diferença é crucial. É preciso saber qual a essência sem perder o foco narrativo. Do que você está falando? O que você quer dizer? Qual a questão central? Lembrando que foco narrativo é diferente de sinopse. Proposta narrativa é como eu vou contar aquilo, pode até ter proposta de sinopse. O que eu estou contando está na sinopse. Como eu vou contar pode estar na proposta do diretor e/ou no argumento.”

Heitor Dhalia – Diretor e roteirista

“A sinopse é o plano de ação de um roteiro. Ela é a gênese de tudo. É dela que todas as respostas vão surgir ou não. A importância é visceral. É a pedra de fundação de uma dramaturgia. Dela se extrai o conceito, a estética da série ou do filme. Já está tudo contido ali de alguma maneira.

A sinopse funciona como uma certidão de nascimento de uma ideia, que ganha substância como uma ideia de fato quando ela se traduz na sinopse. E nesta tradução é onde se estabelecem os parâmetros com os quais se quer trabalhar. É onde você anuncia os seus conceitos e a sua intenção como proposta narrativa e também estética de uma história.”

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