A sala de roteiristas

Luca Paiva Mello – criador e showrunner / Scriptonita Films

Quando você pensa em uma série, é complexa a execução dessa narrativa. Então, para se conseguir viabilizar isso com qualidade, é preciso  um ambiente colaborativo, ou seja, a Sala de Escritores. É preciso escolher muito bem quem vai trabalhar nessa sala de escritores porque o processo costuma ser longo. São muitos meses em que você vai conviver com aquelas pessoas.

Newton Cannito – roteirista, cineasta e escritor

A Sala de Roteiristas não pode ter julgamento. É o pior momento para se ter julgamento. Você não tem julgamento de nada. Você quer ser ético? Vai ser ético no final do filme, agora na hora da criação é qualquer coisa: É o politicamente incorreto, é o que vier. É criança brincando. É essa a conexão, sem saber que existe sociedade. É um momento de criação. Depois vai ter um momento que você vai passar para o produtor, você mesmo vai dar uma julgada, vai tirar umas coisas, o canal vai tirar outras. Está certíssimo, para chegar no produto final. Mas para vir a conexão é o momento de criação pura, e a criação pura é anárquica, é livre, é no limite da moral. A função da arte, não custa lembrar, a arte está sempre no limite da ética. Ela expande a ética, ela está discutindo coisas que as pessoas não acham que são antiéticas ainda. Isso seja comédia, seja o drama, seja qualquer coisa. E isso é muito importante na arte, não é uma brincadeira porque é uma laboratório de experiência existencial onde se experimenta comportamentos que você ainda não sabe se são certos. Você deixa as pessoas brincarem daquilo. Então, você tem que se permitir isso. Então, por que a gente fala muito da responsabilidade social do artista e fala pouco da necessária irresponsabilidade.

A importância da narrativa em séries de não ficção

Matias Mariani – diretor e produtor / Primo Filmes

A não ficção está se assumindo cada vez mais como algo narrativo. Como algo estruturado, que é interessante porque segue um determinado número de regras. Sejam elas regras dramaturgias ou regras mesmo de jogo. A gente tem que se livrar dessa pecha de documentário como algo que não é entretenimento. Acho que a não ficção, por essência, é entretenimento. Então, o gênero tem que seguir as mesmas regras, as mesmas expectativas de uma ficção, em muitos sentidos. Este esse é o desafio.

É preciso escrever e reescrever

Roberto Moreira – professor da ECA-USP, diretor e roteirista

Num roteiro, o pulo do gato, e o ponto mais difícil, são os bons diálogos. Inventam-se histórias, muitas vezes, para suprir a falta do diálogo. É complexo escrever um diálogo que se segura por duas ou três páginas, em que os personagens estão discutindo um tópico importante, dizem coisas interessantes, ou são engraçados continuamente. Isso é muito difícil.

Então, por exemplo, uma técnica que se usa é fazer um brain storm de objetos, 2000 objetos, e relacionar cada objeto com um personagem diferente. E depois para cada dupla de objeto e personagem, faz-se a improvisação de uma historinha. E fica-se lá um dia fazendo isso. Algo que funciona na comédia, sobretudo, é uma produção quantitativa. É preciso escrever muito. É preciso falar de dez maneiras que fulano encontrou ciclano. É preciso dizer: “Enquanto eu não tiver dez maneiras, eu não vou ficar satisfeito.” E é essa obrigação de produzir em quantidade que faz, de repente, você achar uma coisa nova, diferente.

Sobre os desafios de criar roteiros viáveis em termos de produção

Matias Mariani – diretor e produtor/ Primo Filmes

É essencial para um bom roteirista, que faz uma atividade criativa, entender de produção,  entender o que é viável ou não é. É essencial para o trabalho dele. E em todos os níveis, desde quando ele esta começando até ele se tornar um showrunner ou virar um roteirista importante ou seja lá o que for. O que sinto é que o mais comum é encontrar roteiros que até demonstram certo talento, que até demonstram uma capacidade narrativa e dramaturgia interessante mas logo percebe-se que aquela ideia jamais seria exequível dentro da nossa realidade. O Brasil ainda tem orçamentos muito limitados e as coisas precisam ser pensadas para esses orçamentos. Caso contrário, é uma perda de tempo. Senão, você simplesmente fica desejando muito algo que não vai acontecer e morre no papel.

Andrea Barata Ribeiro – produtora / O2 Filmes”

O importante desde o começo do projeto é que produtor, roteiro e criação estejam alinhados com qual o tamanho do projeto que eles vão criar, para não que não seja preciso voltar dez casinhas. Passar um ano criando um projeto, o projeto estar incrível e depois se frustrar lá na frente e falar: “Está o dobro da verba, né? Não cabe e vamos engavetar o projeto por causa disso.” Então, quanto mais você conhece do processo mais o resultado tende a ser assertivo. Não é fundamental que um roteirista conheça os meandros de uma produção, mas quanto mais experiência ele vai adquirindo, quanto mais experiência os produtores vão adquirindo, mais fácil se torna esse diálogo de a produção e o roteiro falarem a mesma língua. Os roteiristas que vão apresentar um projeto devem ensaiar isso antes, os que não têm prática ainda. E, na essência do projeto, tentar conquistar a atenção da pessoa logo, mostrando qual é esse universo, “o que é que o meu projeto tem”. “O que é que tem de diferente, de bacana e tal. Então, isso é uma questão de treino também. E até treinar no espelho mesmo. Treinar em casa é bom. Enfim, preparar-se para uma reunião, para uma reunião de pitching é fundamental.

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