“A internet modificou nossa relação com a linguagem e com a política”, segundo Márcia (Crédito da imagem: Simone Marinho)

 

Leonardo Valle

O que difere o cidadão do passado do cidadão dos dias atuais? Para a filósofa Márcia Tiburi, uma mudança significativa ocorreu após o advento da internet e das redes sociais. “A internet modificou nossa relação com a linguagem e, consequentemente, com a política. Somos cidadãos digitais. A questão, agora, é pensar nossas possibilidades de exercício político e cidadão nesse contexto”, destaca. Confira, abaixo, a entrevista completa com a pensadora.

O que é ser cidadão?
Márcia Tiburi – O conceito de cidadania está sendo usado em referência e como substituto à palavra política. Cidadão deriva do latim “civita”, que se referia a pessoa de direito na cívica, a cidade-estado.  Na Grécia, a cidade era chamada polis e o cidadão eram os polites. Assim, no campo da etimologia e da cultura, a cidadania está relacionada à política. Contudo, é preciso entender a política não no seu sentido partidário ou dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário. A política é o campo de relações entre as pessoas dentro de um determinado contexto. Nesse sentido, tudo é política. Política é estar relacionado a uma sociedade, a algo maior que a sua individualidade.

Por que o termo cidadania substituiu, ao longo dos tempos, a palavra política?
Márcia Tiburi – A palavra política tem passado por um processo de indignificação e desprezo. Nesse momento, cidadania passou a substituí-la. A questão é: por que certas palavras estão deixando de ser usadas? Parece que elas carregam um significado praticamente insuportável. A cidadania é útil e não pode avançar se não lembrarmos sua origem e significado, que está atrelado à política.

O cidadão hoje é diferente do cidadão em outros tempos?
Márcia Tiburi – Sempre é diferente. O conceito de cidadania se modifica ao longo da história e incorpora novo significados. Desenvolvemo-nos no espaço e tempo, então, a cidadania é um conceito que também muda em termos éticos e morais, alterando nossa subjetividade. O cidadão de hoje não é o mesmo da Revolução Francesa. Somos diferentes hoje, por exemplo, porque somos cidadãos digitais. Além disso, ser cidadão é ter direitos, e vivemos em um momento em que todos os direitos fundamentais estão abalados. Vivemos hoje, no Brasil, a experiência não democrática de Estado de exceção.

O que é ser cidadão digital?
Márcia Tiburi – A internet modificou nossa relação com a linguagem e com a política, entendida aqui tanto no sentido amplo como no estreito. Todos somos afetados pela tecnologia. À medida que ela muda nossa linguagem, transforma também a nossa relação com a comunicação e informação. E qualquer coisa que muda a linguagem, muda a política e a cidadania. A questão agora é pensar nas possibilidades de exercício político e cidadão nesse contexto digital.

E como estamos usando as tecnologias em prol da cidadania?
Márcia Tiburi – A cidadania também pode ser exercida pela internet. Mas, veja as redes sociais. Podemos, por exemplo, participar e compartilhar um abaixo assinado que visa o benefício de todos. Contudo, as mesmas redes sociais podem ser utilizadas para difundir um discurso de ódio, autoritário e antidemocrático.

Qual o impacto do discurso de ódio virtual na cidadania?
Márcia Tiburi – Não existem direitos sem deveres na cidadania. São duas coisas que estão associadas. Por exemplo, muita gente alega liberdade de expressão para exercer o discurso de ódio. Contudo, esse conteúdo odiento já destrói e cancela, por si só, a ideia de liberdade à medida que destrói o exercício do convívio.

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