Leonardo Valle

Foliã de carteirinha, a jornalista Bruna Saldanha costumava levar sua filha Isabel (10 anos), com paralisia cerebral, para os blocos de carnaval. “Contudo, era muito raro encontrar outras pessoas com deficiência nessas festas. Então, pensei: por que não criar um bloco inclusivo? Naquele momento, não conhecia nenhum perto da minha casa”, lembra ela, que é moradora do Rio de Janeiro.

Saldanha criou, assim, o Bloco Eficiente, em 2014. A primeira edição – que funcionou com uma aula dentro de um bloco organizado por amigos da jornalista – reuniu, de cara, 50 pessoas. “Percebi que era o suficiente para montarmos um bloco próprio”, revela.

Atualmente, a iniciativa acontece na Praça Paris (avenida Augusto Severo, 342, Rio de Janeiro) e é voltada para pessoas de todas as idades, gêneros e deficiências, mas com foco especial nas crianças. Atualmente, o Bloco Eficiente já reúne mais de 100 pessoas. “Ele é parado, está em uma região central da cidade, de fácil acesso e com bastantes árvores”, explica ela.

Já em Niterói (RJ), o bloco “Me Empurra Que Eu Ando” se prepara para comemorar sua décima edição. A iniciativa foi idealizada pela fisioterapeuta Viviane Decat, que promove a concentração na rua Ministro Otávio Kelly, 297. O bloco anda dois quarteirões.

“A ideia surgiu em uma conversa entre terapeutas e pacientes. Uma paciente cadeirante sugeriu, e eu vi que era possível. Recorri à secretaria de transportes da prefeitura para fechar a rua, providenciamos som, camiseta e bateria. No primeiro ano, deu bastante gente e, hoje, reunimos por volta de 400 pessoas com deficiência, terapeutas e famílias”, comemora. 

Visibilidade para transformar

Para Saldanha, blocos inclusivos ajudam a conscientizar a população em geral sobre a importância do acesso da pessoa com deficiência à cidade. “Ainda vivemos em um momento em que a padaria do bairro e a escola não possuem rampas que permitem que os cadeirantes as acessem. Esses blocos reúnem pessoas com e sem deficiência em um mesmo lugar, tornam essa população visível e aproveitam o momento de festa para tratar do assunto de forma leve. Isso facilita a absorção pelo povo”, opina.

“Também ajudam a mostrar que iniciativas de lazer devem ser pensadas para essa população, que costuma ficar esquecida”, complementa.

Para Decat, os bloquinhos inclusivos também fortalecem a autoestima das pessoas com deficiência. “Há pessoas que acham que não podem, não devem ou não conseguem ir às ruas. Quando elas veem outras, às vezes com deficiências até mais severas que as delas, divertindo-se, isso serve como estímulo”, aponta.

Para a jornalista, o ideal seria que outros blocos se preocupassem com essa temática. “Seria lindo se todos se preocupassem e promovesse a acessibilidade, uma área reservada e mais cuidado ao folião com deficiência. Enquanto isso não acontece, a mensagem principal que deixamos é que todos merecem se divertir”, diz Saldanha.

Replicando a ideia

Para pessoas que desejam fazer um bloco inclusivo em sua cidade ou região, Saldanha oferece algumas dicas: “É preciso pensar no bem-estar de quem vai estar ali, a acessibilidade, como eles vão chegar, se o lugar é menos exposto ao sol, se há possibilidade de abrigo se chover. O básico é a pessoa com deficiência, seus amigos e familiares poderem chegar, e lá ficarem por algum tempo”, recomenda.

As melhorias, segundo a organizadora, vão sendo conquistadas aos poucos. “Nosso bloco não tem patrocínio. Esse ano, eu estou tentando um banheiro químico, um trocador de fraudas e remunerar algumas pessoas para ajudarem”, conta ela, que costuma animar os foliões com perna de pau. “Outros voluntários fazem pinturas de rosto nas crianças”, conta.

O fechamento de ruas pode exigir uma conversa e autorização da prefeitura do município. “O mais importante é mostrar para as pessoas que não é preciso ter perna ou saber sambar para curtir a vibração e a alegria de uma festa popular”, reforça Decat.

Para pessoas que buscam blocos inclusivos nas demais regiões, outras opções são: Me Segura Senão Eu Caio (Recife), Bloco do Fico (São Paulo), Senta que eu Empurro (Rio de Janeiro), o VibraMão (para surdos, em São Paulo), Todo Mundo Cabe no Mundo (Belo Horizonte), Bom Para Todos (Brasília), entre outros.

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Crédito das imagens: Ana Wander Bastos/Facebook Seja Eficiente

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