Leonardo Valle

A moda é um setor vulnerável ao trabalho escravo. O motivo é que a maioria das marcas e varejistas não possui fábricas próprias, terceirizando a sua produção. “Essas indústrias de confecção subcontratam uma rede de pequenas oficinas para costurar as peças. A pulverização do trabalho em diversas camadas e locais dificulta o monitoramento”, resume o coordenador do aplicativo Moda Livre e associado da ONG Repórter Brasil, André Campos.

Essa fragmentação da cadeia torna os trabalhadores, que estão na ponta, invisíveis. “Uma marca pode fazer um pedido de produção para um fornecedor, que subcontrata o trabalho com outras fábricas. É onde tendem a ocorrer os maiores riscos de violação dos direitos humanos e degradação ambiental”, alerta a diretora educacional da Fashion Revolution Brasil, Eloisa Artuso.

“Para a produção de suas coleções, as marcas podem trabalhar com centenas de fábricas ao mesmo tempo, considerando os fornecedores que cortam, costuram e dão acabamento, além dos que tecem e tingem”, exemplifica ela.

De acordo com a Associação Brasileira do Varejo Têxtil (Abvtex), existem aproximadamente 28 mil confecções com mais de cinco empregados no país. “Dessas, 97% estão enquadradas na categoria de micro, pequenas e médias empresas”, informa o diretor executivo da entidade, Edmundo Lima.

Imigrantes são vítimas

No Brasil, as situações de trabalho escravo costumam ocorrer em pequenas oficinas de costura localizadas na região metropolitana de São Paulo. O problema atinge tanto o mercado informal de roupas quanto grandes grifes e redes varejistas. Trabalhadores imigrantes da América Latina e África são as principais vítimas.

“Eles ficam vulneráveis às condições impostas pelo empregador. Muitos são contratados em seus países de origem e, no Brasil, vivem dentro da própria oficina de costura. Não raro, as condições de moradia e alimentação são precárias e as jornadas vão além do limite legal”, denuncia Campos.

“Estando em um país estranho, essas pessoas não sabem a quem recorrer e, quando ocorrem abusos, ficam presas à exploração”, lamenta.

Dados e informação

Para o consumidor que deseja saber se as marcas que usa estão vinculadas ao trabalho escravo, o aplicativo gratuito Moda Livre fornece um banco de dados sobre todas as grifes que já foram autuadas pelo governo federal.

“Além de apresentar o histórico de fiscalizações sobre o tema, o app também avalia ações que as principais empresas do setor adotam para prevenir casos assim na produção de suas roupas”, descreve Campos.

Outra forma é conferir se as lojas ou marcas são vinculadas à Abvtex, que possui um programa de auditoria para certificar que seus associados não usam trabalho escravo. “Caso sejam encontrados irregularidades entre os fornecedores e seus subcontratados, estas empresas são suspensas da certificação”, explica Lima. “As varejistas signatárias comprometem-se a somente adquirir produtos de empresas aprovadas pelo nosso programa.”

Segundo os dados da entidade, o programa certificou 3.720 empresas em 643 municípios e 17 estados. Com isso, atingiu 331.055 trabalhadores. “Mas a problemática extrapola o nosso universo, uma vez que as associadas respondem por cerca de 25% do mercado. Ou seja, milhares de confecções não certificadas e que não fornecem para as varejistas associadas podem utilizar práticas irregulares”, destaca o diretor.

Transparência é primeiro passo

Algumas grifes e redes varejistas indicam seus fornecedores nas etiquetas. Para Campos, a medida é importante porque pode facilitar o monitoramento externo da cadeia produtiva. “Dessa forma, a empresa colabora para que eventuais abusos trabalhistas sejam identificados”, diz.

A Fashion Revolution Brasil disponibiliza em seu site o Índice de Transparência da Moda, projeto que existe globalmente desde 2016. A análise indica como as grandes marcas estão divulgando publicamente suas informações sobre o assunto e o nível de transparência em suas ações.

O movimento também recomenda aos consumidores usarem as mídias sociais para questionar isso por meio da hashtag #quemfezminhasroupas e estimular as empresas a fazerem mais divulgações públicas sobre seus fornecedores.

“A transparência é um meio para a mudança, não um fim. Esse primeiro passo, para provocar transformação na indústria, implica em dar mais visibilidade sobre as relações comerciais e de trabalho nas cadeias de fornecimento”, finaliza Artuso. 

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Crédito da imagem: LewisTsePuiLung – iStock

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