Leonardo Valle

Na língua nigeriana igbo, a palavra umunna significa irmandade e clã. O termo caiu como uma luva para o projeto das ativistas Gabriele Roza, Juliana Marques, Diana Mendes e Ana Carolina Lourenço, que visa estimular a presença de mulheres nas instituições e espaços de poder. Foi assim que, em 2018, o grupo fundou a Rede Umunna, iniciativa que atua em três frentes: promoção de ciclos de formação política, disponibilização de dados sobre mulheres negras e criação de novas narrativas sobre essa população.

Tudo começou quando o quarteto, mais a analista de sistemas Lorena Pereira, foi selecionado para participar do programa Minas de Dados, iniciativa das organizações Transparência Brasil, Olabi e Data_Labe de formação para dados abertos, narrativas e tecnologia para governos. Ao final, o grupo criou, em conjunto, a plataforma “Mulheres Negras Decidem”. O gancho foi uma informação importante e pouco divulgada: a maioria do eleitorado brasileiro é composto, justamente, por essa população.

“As mulheres negras são sempre vinculadas a estatísticas negativas, como as maiores vítimas de violência, de encarceramento e de desemprego. A ideia foi destacar os dados positivos para construir uma contra-narrativa”, justifica a graduada em relações internacionais e políticas públicas, Diana Mendes.

Campanha Mulheres Negras Decidem incentivou protagonismo nas eleições

 

O time passou a analisar as informações sobre as mulheres e disponibilizá-las na plataforma de maneira acessível e de fácil entendimento – o que nem sempre acontece nos portais dos institutos de pesquisa. Além disso, isso foi utilizado para desconstruir mitos que repercutem de maneira negativa na sociedade, como “negro não vota em negro”, “mulheres negras não se candidatam” ou que “candidatas negras, quando eleitas, só defendem pautas identitárias”.

“Elas não apenas se candidatam como são competentes e apresentam experiências e vivências para exercer tal função”, explica Mendes. “Ao final, a falta de representatividade reflete na criação de políticas públicas. Muitas delas não atingem ou são mesmo contra as mulheres negras”, analisa.

Segurança é desafio

Os dados disponibilizados no portal também ajudam a diagnosticar a situação das mulheres negras em relação à política brasileira. Informações levantadas pelo coletivo, por exemplo, apontam que candidatas negras recebem apenas 2,51% dos financiamentos de campanha – fato que prejudica a divulgação e o alcance de suas candidaturas, além da conquista de vagas no legislativo e executivo.

Além disso, muitos indicadores são recentes. Foi somente em 2014, por exemplo, que os candidatos foram obrigados a declarar sua cor e raça ao Tribunal Federal Eleitoral. “Ou seja, tivemos a primeira série histórica de comparação apenas nas eleições desse ano”, relata Mendes.

Entre 2014 e 2018, o número de mulheres negras na câmara dos deputados passou de 10 para 13 vagas. Além disso, houve a primeira eleição de uma mulher indígena e a quantidade de mulheres brancas aumentou 26 vagas, passando de 41 para 63.

Quanto aos ciclos de formação política, a Rede Umunna oferece encontros quinzenais abertos na cidade do Rio de Janeiro, e mensais na cidade de São Paulo. As datas são divulgadas pela conta da iniciativa no Instagram.

“Por fim, não basta apenas discutir a representatividade, mas a segurança dessas candidatas. Quando elas chegam lá, ainda são vítimas de homicídio, como o ocorrido com a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco. Ou seja, ainda há um passo atrás que precisa ser visto”, denuncia a coordenadora.

Veja mais:
Coletivo produz conteúdo em que mulher negra e pobre é protagonista
Livro online e gratuito traz histórias de mulheres negras guerreiras
Nenhuma mulher negra dirigiu ou roteirizou conteúdo audiovisual em 2016, aponta pesquisa
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Crédito das imagens: divulgação

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