Leonardo Valle

Os homens não dividem as tarefas domésticas e os cuidados com os filhos igualitariamente com as mulheres, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), divulgados em 2018. O relatório “Estatísticas de Gênero” apontou que a brasileira dedica semanalmente 18,1 horas a tarefas domésticas e cuidados com terceiros, contra 10,5 horas do sexo oposto. Já a publicação “Outras Formas de Trabalho 2017” destacou que 91,7% do público feminino realizavam tais atividades contra apenas 76,4% do masculino.

Para mudar essa realidade, alguns pais estão usando as redes sociais para relatar experiências de cuidado com os filhos e discutir, com outros homens, formas de exercer uma paternidade ativa – conceito que, eles próprios, esperam que um dia se torne obsoleto.

“Dificilmente o adjetivo ‘ativo’ é associado à maternidade, pois fica um consenso de que a mãe desempenha esse papel de apoiar o desenvolvimento físico, emocional e financeiro da criança. Nesse sentido, paternidade ativa deveria ser somente paternidade. A própria palavra ‘ativo’ nos mostra que estamos longe disso”, analisa o designer Hilan Diener, criador do canal de vídeos Potencial Gestante com sua esposa Luísa, em 2010.

“Espaços para homens expressarem sentimentos e buscarem informações ajudam a desenvolver uma nova paternidade”, diz Hilan Diener (crédito: Grazi Ventura)

 

Para ele, é preciso colocar a mão na massa e se envolver com a criança em outros aspectos que não apenas financeiro. “Não mais achar que o pai está fazendo uma grande coisa apenas colocando dinheiro em casa”, diz.

Opinião semelhante possui o jornalista Marcos Piangers, autor do best-seller “O Papai é Pop” e que também usa o YouTube para se conectar com pessoas interessadas no tema. Segundo ele, a construção de paternidade ainda esbarra no machismo.

“Somos uma geração que percebeu que seu relacionamento com o pai não funcionava, por ele ter sido distante, mais preocupado em pagar as contas. Um familiar que não demonstrava afeto e não participava da educação dos filhos, com isso, perdia momentos felizes também. Foi questionar essa relação que me possibilitou aprimorar a minha paternidade”, justifica.

“Conheci muitos colegas de profissão que queriam estar mais perto dos filhos e eram constrangidos pelos amigos. Achavam que se dividissem as tarefas de casa seriam taxados pelos colegas como submissos a mulher. Que seriam menos ‘homens'”, acrescenta.

Autor do livro “O papai é pop”, Marcos Piangers precisou rever o que entendia por paternidade para fazer diferente (crédito: Giselle Sauer)

 

Contra o problema, a dupla acredita que representatividade e informação são as saídas. “Homens não sabem educar porque não tiverem referência e exemplos dos seus próprios pais. Há muitas histórias de abandono e ausência. A forma de mudar isso é conversando entre si e criando núcleos para divulgar informação. Possibilitar que esses novos pais sejam agentes de transformação”, sugere Diener.

Mulher é liberta

De acordo com Piangers, o homem é beneficiado quando revisa o conceito de paternidade que aprendeu. “Essa construção de masculinidade o afasta da criação de vínculos afetivos. Com isso, estatisticamente, o homem morre mais cedo, é mais vulnerável a mortes violentas e no trânsito, é maioria no sistema penal e propenso ao suicídio. Estar com pessoas queridas ajuda a ter uma vida mais equilibrada”, defende ele, que considera a sua família um “time”.

“Eu faço tudo: limpo a casa, cozinho, levo as crianças no pediatra, etc. Acho estranho falar sobre isso porque é o básico. Não quero palmas”, destaca. “Contudo, sei que ainda é necessário explicar para um homem porque ele precisa lavar a sua louça. Explicar que ele usa prato e talheres para comer e que, se não lavar, alguém fará isso por ele”, lamenta.

Já o dentista Guilherme Piazza – que ganhou visibilidade no Instagram e no YouTube com o perfil O Pai_Xão – aponta os benefícios para os filhos ao ganharem um pai presente. “Eles têm um amigo, alguém que os auxilia a se desenvolverem com mais segurança e que podem depositar confiança quando tiverem um problema”, justifica.

Foi ao registrar o cuidado com os filhos em seu Instagram que o dentista Guilherme Piazza se tornou referência para outros pais (reprodução Instagram @pai_xao)

 

Além disso, quando o homem ocupa o seu papel, a companheira não fica sobrecarregada. “Ela é liberada para ser o que ela quiser e se realizar profissionalmente, não precisa ficar fechada dentro de casa. Pode viajar, aceitar promoções, ser feliz”, acrescenta Piangers. “Filho é um projeto de duas pessoas e exige tempo e esforço. Não é obrigação da mulher fazer isso sozinha”, decreta Piazza.

Piangers acredita que a mudança no exercício da paternidade é capaz de afetar positivamente toda a sociedade. “Penso que o homem tem capacidade, sensibilidade e talento para criar seus filhos e inspirar uma geração mais humana e gentil, por meio da presença física e da quantidade e qualidade do tempo que oferece”, garante.

Veja mais:
Publicação reúne reflexões sobre paternidades e primeira infância

Crédito das imagens (destaque e topo): Grazi Ventura e Giselle Sauer

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