Leonardo Valle

Desde 2017, está no ar a Mídia Índia – um projeto em que os próprios indígenas escrevem e divulgam conteúdos voltados tanto para informar a sociedade em geral quanto para discutir temas importantes entre seus pares. A iniciativa foi idealizada pelo jornalista Erisvan Bone, membro dos Guajajaras, do Maranhão. Os conteúdos são divulgados em redes sociais, como Facebook e Instagram.

“O objetivo é dar voz aos povos tradicionais e visibilidade à sua luta e resistência, em um momento de ataques e perdas de direitos”, justifica Bone. “É trazer fatos da realidade contados por nós próprios e mostrar que o indígena pode ser protagonista da sua história. Que não há necessidade do não-indígena ir à aldeia para divulgar o que acontece, as vezes por outro viés. Não raro, vemos nossas pautas sendo retratadas por setores da grande mídia de forma distorcida e negativa”, lamenta.

Outra função do projeto é divulgar a diversidade cultural dos indígenas, por vezes retratados de forma estereotipada. “O Brasil possui 305 povos e 274 línguas diferentes. Uma riqueza que muitos desconhecem”, ressalta.

Erisvan Guajajara faz uma transmissão ao vivo, em audiência da Câmara dos Deputados (crédito: Oliver/Mídia Ninja)

 

Rede ampliada

A equipe da Mídia Índia é formada por dez jovens de diferentes povos, muitos com formação em comunicação. As pautas são decididas de forma colaborativa em reuniões semanais e envolvem pesquisas sobre a realidade da população. “Por exemplo, se decidimos na semana falar sobre educação indígena, pesquisamos como está essa questão nas tribos, os desafios e as conquistas”, ilustra o idealizador.

Os membros do coletivo também oferecem formação a outros jovens durante viagens e eventos, como assembleias de encontros de diferentes povos. As aulas abordam como produzir fotos, vídeos e utilizar as redes sociais de maneira responsável. “Muitos deles já acessam as redes sociais. A formação visa explicar sobre as melhores formas de usarem essas ferramentas para divulgar e também denunciar”, aponta.

“A internet tem um lado positivo e outro negativo. É importante que o jovem indígena tenha foco no seu uso, saiba o que quer comunicar e como fazê-lo”, complementa. “Queremos formar multiplicadores e fazer de uma forma que a rede cresça”.

Igualdade de gênero

Para o futuro, Bone conta que a Mídia Índia foca agora em conteúdos que ajudem a promover a igualdade de gênero nas aldeias, divulgando o protagonismo de mulheres indígenas.

“Tradicionalmente, as lideranças ficaram centralizadas nos homens, nas figuras dos pajés. Hoje, contudo, temos diversos nomes de mulheres que são líderes e dão visibilidade à luta dessa população. É importante compartilhar essas biografias”, explica.

A equipe também finaliza um documentário sobre indígenas LGBTQ+. “O objetivo é quebrar paradigmas e discutir o preconceito que muitos deles sofrem nas suas próprias terras. Queremos mostrar que o amor sempre vence e que o respeito é fundamental”, acrescenta.

Criança durante o Acampamento Terra Livre (ATL) 2019 (crédito: Webert/divulgação)

 

Durante as eleições, o grupo também ajudou nos planos de comunicação para candidatos indígenas. “Precisamos estar em todos os espaços de poder. Sempre com um pé na aldeia e outro, no mundo”, destaca.

Veja mais:
Preconceito ainda é principal desafio de juventude indígena que vive na cidade
Mudança na demarcação de terras prejudicará indígenas e quilombolas, para entidades do setor
Povo Munduruku lança publicação na internet para alertar sobre importância de demarcação de terras

Crédito das imagens (destaque e topo): Leonardo Milano e Webert/divulgação

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