Leonardo Valle

A homofobia e o preconceito são realidades no universo do futebol, manifestados no grito das torcidas, nos xingamentos entre os jogadores durante as partidas e na resistência de times, patrocinadores e torcedores em apoiar jogadores gays e bissexuais. O resultado é que muitos atletas preferem não divulgar sua orientação sexual até a aposentadoria – caso de jogadores como Thomas Hitzlsperger, que chegou a defender a camisa da Alemanha na Copa de 2006.

Foi nesse cenário que o advogado paulista Filipe Marquezin cresceu. Fã de futebol desde criança e inserido em uma família igualmente apaixonada pelo esporte, ele sentia resistência em ser aceito em determinados ambientes onde os garotos costumavam jogar bola.

“A escola, por exemplo, não é um dos melhores lugares para os gays e as aulas de educação física eram alguns dos momentos mais perturbadores. Sofri muito com homofobia durante esse período”, lembra.

Em 2015, Marquezin sentiu vontade de praticar a modalidade esportiva em um local que fosse agradável, seguro e com outros homens gays. Sem espaços disponíveis, ele e o amigo Bruno Host reuniram outros interessados e fundaram o time Unicorns Futebol Clube, de São Paulo (SP).

Unicorns: time pioneiro oferece treino e jogo aberto uma vez por semana em São Paulo. (crédito: reprodução Facebook Unicorns Brazil)

 

“O futebol é o maior bastião da homofobia e acredito que será o último lugar a deixar de ter pessoas homofóbicas. Neste cenário, ter times gays e mostrar que essa população joga bola – e muito bem –, curte futebol e vai ao estádio é fundamental”, destaca. “Seja para os próprios jogadores gays que não saem do armário, seja para as marcas perceberem que eles gostam do esporte”, ressalta.

Ensinar e aproximar

Acolher membros da comunidade LGBTQ+ que não tiveram oportunidade de jogar futebol por preconceito também é o objetivo do Dandara Futebol Clube, de João Pessoa (PB). O idealizador, Pzeus Rodrigues, sentiu-se estimulado em procurar parceiros para jogar bola após conhecer o Unicorns pela mídia. O nome do seu time foi uma homenagem à travesti Dandara dos Santos, assassinada no Ceará, em 2017.

“Ao contrário de muitos colegas, minha história no esporte foi normal. Não sofri preconceito na escola ou nos times de bairro. Sempre joguei e, se nunca escondi minha orientação sexual com os colegas de partida, também nunca a abri”, descreve. “A questão é a impossibilidade de falar dessa prática esportiva hoje sem discutir o problema do machismo e da homofobia, que estão presentes em todas as esferas e precisam ser combatidos. Se a pessoa não joga tão forte ou tão duro, sempre será ‘mulherzinha’, ‘bicha’ etc”, pontua.

Com nome inspirado em travesti assassinada, Dandara F.C é o único time de futebol de João Pessoa voltado para comunidade LGBTQ+ (crédito: reprodução Facebook Dandara FC LGBTQ)

 

Um exemplo ocorreu quando Rodrigues fez o primeiro chamamento nas redes sociais para encontrar pessoas que topassem jogar. Muitos rapazes responderam, mas apenas quatro se candidataram. “A maioria dizia que apoiava a causa, mas que não se sentia seguro porque sofreu bullying no colégio, no vestiário, tinha traumas ou sequer sabia se gostava ou não do esporte porque não teve oportunidade de jogar. Eram homens que não se sentiam aceitos”, revela.

Isso fez Rodrigues enxergar no Dandara F.C. uma oportunidade de inclusão.  “Formamos o time e nosso objetivo principal é que outros homens gays, transgêneros e bissexuais tenham contato com o esporte e aprendam a jogar. Por isso, não pressionamos os membros a participar de campeonato e torneios, por exemplo. Apenas quando eles desejam ou se sentem preparados”, conta. “Para quem deseja competir, os treinos possuem a orientação de uma treinadora profissional e exercícios táticos e técnicos”, acrescenta.

Copinha

Em novembro de 2017, o Unicorns ajudou a idealizar a Ligay Nacional de Futebol (LGNF), hoje o principal campeonato do gênero no Brasil. O evento reúne times de todo o país e acontece duas vezes por ano, em abril e novembro. “É um momento emocionante para todo os envolvidos”, confessa Marquezin. O evento, que começou pequeno, hoje possui lista de espera. Caso do Dandara F.C., que se prepara para estrear em 2020. Em 19 e 20 de abril de 2019, Brasília sediará a 4° edição da Champions Ligay. Este ano, o campeonato reunirá 24 equipes de futebol.

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Crédito da imagem principal: reprodução Facebook Unicorns Brazil

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