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Confira a transcrição do áudio

Marcelo Abud

Em 2014, Dimitri Jereissati, então com 16 anos de idade, foi encontrado pelo pai sem vida, com um cinto em volta do pescoço. Ele havia participado de um desafio que tinha visto na internet. Dois meses depois, o responsável pelo garoto criou o Instituto DimiCuida, destinado a preservar a vida de outros jovens em meio a popularização da prática das chamadas brincadeiras perigosas, que atingem uma parcela significativa de crianças e adolescentes, entre 4 e 20 anos.

Com a expansão de canais no YouTube, houve uma proliferação desses jogos de não-oxigenação, de acordo com a psicóloga do instituto, Fabiana Vasconcelos, ouvida neste podcast. Responsável por palestras sobre o tema, ela aponta como pais e educadores podem identificar sinais de que a pessoa está vivenciando situações que levam ao desmaio, o que pode gerar sequelas ou até a morte. “Eles normalmente são notados diante de marcas ou alterações no comportamento”, alerta. Por exemplo, se o filho começa a usar camisas de gola alta ou de manga comprida, mesmo quando está calor, pode ser para esconder marcas no corpo geradas por essas práticas.

No áudio, a psicóloga relaciona esses e outros indícios e aponta de que forma adultos podem tentar evitar que crianças e jovens se envolvam com os desafios. O diálogo é um dos caminhos. “Você pode questionar que tipo de desafios eles conhecem e pedir que expliquem porque são perigosos. Quando chega nos jogos de não-oxigenação, o adulto pode focar no que acontece quando se interrompe o fluxo de oxigênio pro cérebro, principalmente nas sequelas que eles não querem ter, que reduzem a qualidade de vida”.

Créditos:
A música utilizada na edição do podcast é “Dizer não é dizer sim” (George Israel e Paula Toller), com Kid Abelha. A música de fundo é composta e tocada por Reynaldo Bessa.

Veja também:
Material informativo sobre jogos de não-oxigenação, do Instituto DimiCuida

Crédito da imagem: Highwaystarz-Photography – iStock

Transcrição do áudio:

Vinheta “Instituto Claro – Cidadania”

Trilha de fundo

Marcelo Abud:
As brincadeiras perigosas, em muitos casos, estão ligadas ao corte da passagem de ar para o cérebro, provocando desmaio. O motivo seria a busca de uma sensação de euforia ou alucinação. Para entender como esses jogos, que, em alguns casos, chegam a ser fatais, podem ser percebidos e evitados, o Instituto Claro conversa com a psicóloga do Instituto Dimicuida, Fabiana Vasconcelos.

Fabiana Vasconcelos:
A ideia de ser youtuber tem tido um impacto muito grande em como esses desafios são disseminados no Brasil. Porque você está em busca de visualizações e curtidas, então nós temos youtubers de desafio no Brasil. E criança e adolescente têm esses rapazes ou esses grupos como ídolos. E eles copiam os comportamentos de risco, na busca de ser como aquele youtuber ou aquele grupo que faz os desafios.

Marcelo Abud:
Os adultos podem identificar se a criança ou adolescente está em risco, ao observar alterações físicas, comportamentais ou no ambiente.

Fabiana Vasconcelos:
O jogo do desmaio, em casa, ele vai precisar de um objeto que ele possa fazer uma amarradura. Pode ser um cinto, pode ser a faixa das artes marciais, pode ser uma coleira de cachorro. Então, isso, ela pode estar escondida debaixo do travesseiro, no fundo de uma gaveta ou então amarrada em lugares estranhos, na maçaneta de uma porta, na arara do closet.

Marcelo Abud:
Os sinais físicos também podem ser indicativos de que algo não está bem.

Fabiana Vasconcelos:
Físicos porque ele monta um quadro clínico, porque você vai debilitando tanto o seu funcionamento cardiorrespiratório como isso afeta a cognição, você acaba tendo outros sinais também: os olhos vermelhos, irritados, dores de cabeça constantes, desorientação, a sensação de não saber exatamente que horas são, que dia é aquele, principalmente se ela passou muito tempo isolada, sozinha. Há marcas. Vários desses jogos deixam marcas no corpo, jogo do desmaio deixa marcas, o pescoço arroxeado ao redor da carótida; o desodorante deixa marcas avermelhadas… se está fazendo o desafio na pele, parece uma queimadura de moto, e ele vai esconder. Ele sabe que no momento em que deixou marcas no corpo, o pai, a mãe ou responsável vai perguntar do que se trata, com aquela marca fica visível a prática. Então, ele vai usar roupas que cobrem os braços, as pernas e, se ele fizer o jogo do desmaio, ele vai cobrir a região do pescoço. Se a criança está cobrindo o corpo excessivamente, você pode associado a outros sinais de comportamento e físico, você pode se questionar se ele não está acobertando uma marca.

Som de desodorante spray

Repórter: “A suspeita é de que a criança tenha inalado o produto durante um desafio que tem circulado na internet. Nele, os jovens aspiram desodorante por diversas vezes pelo maior tempo possível”.

Fabiana Vasconcelos:
E no caso do desodorante, nós também descobrimos que o adolescente coleciona os frascos vazios como troféus. Então, se você acha uma caixa com 10 frascos de desodorantes vazios embaixo da cama ou dentro do armário do banheiro e às vezes está visível. A criança ou adolescente considera aquilo tão inofensivo, dentro realmente de um desafio, que, às vezes, ele deixa expostos esses frascos.

Marcelo Abud:
A prática é disseminada como inofensiva e desperta a curiosidade de crianças. Em geral, elas não têm consciência das possíveis sequelas ou risco de morte a que se sujeitam.

Fabiana Vasconcelos:
Uma coisa que a gente percebeu muito é que a criança de hoje, principalmente a que acessa a internet muito cedo, ela acaba ficando numa região nebulosa entre o que é o real e o que é o virtual. Então, os pais têm que resgatar o diálogo, inserir a internet, que cuidados devemos ter com ela, que comportamentos nós copiamos. Primeira recomendação que a gente faz para a família é para estabelecer um diálogo diário de cuidado onde a internet faça parte. Esse diálogo tem que partir também de um conhecimento do que é que a criança ou adolescente está acessando, assistindo, visualizando, curtindo, acompanhando e, eventualmente, querendo copiar. A partir disso, é sentar com a criança ou adolescente e conversar sobre que comportamentos vêm desses vídeos, filmes, os stories do Instagram hoje em dia. Todo tipo de comportamento e informação que chegue e a criança tem certo fascínio e queira acompanhar, tem de entrar no diálogo. E pra isso os pais têm de estar em proximidade com esse mundo em que a criança ou adolescente está inserido. A gente não tem mais como se distanciar. A partir disso, ela investiga: ‘mas o que este youtuber faz?’, ‘este vídeo, você gosta de assistir por quê?’, ‘o que há neste filme que você acha interessante e por quê?’. Então, se ele esboça o interesse ou se ele menciona um desafio ou uma brincadeira, aí já entra uma prevenção tranquila em casa.

Marcelo Abud:
Os adultos têm papel fundamental para instruir crianças e adolescentes a evitar estas práticas perigosas.

Fabiana Vasconcelos:
Quando nós estamos falando de sequelas dos jogos de não-oxigenação, nós não estamos falando só da criança perder a vida. Ela pode sustentar fazer um jogo de não-oxigenação por várias vezes. Então ela vai ter uma debilitação do corpo, principalmente do sistema cardiorrespiratório, com efeitos e sequelas neurológicas. O que é que acontece quando se interrompe o fluxo de oxigênio no cérebro? A gente tem que compreender que o cérebro está controlando toda a nossa existência. Se eu retirei dele esse nutriente primeiro, primordial, que é o oxigênio, ele vai começar a comandar partes do corpo que não funcionem mais. Ela vem debaixo pra cima, então pernas, esfíncteres, rins, e, eventualmente, os pulmões, o coração, ela vai diminuindo o funcionamento do coração.

Música: “Dizer não é dizer sim” (Paula Toller e Leoni), com Kid Abelha
“Dizer não é dizer sim / Dar um não ao que é ruim / É mostrar o meu limite / É mostrar o meu limite”

Fabiana Vasconcelos:
A gente sabe que para o adolescente é complicado dizer não ao grupo, porque ele acaba sendo o adolescente que é o fraco ou que não participa, e ele pode se sentir isolado ou marginalizado, ou o próprio grupo pode dizer que ele não participa mais. Então, como é que eu me saio numa posição superior, de líder até, onde eu diga não? A gente ensina eles darem respostas humoradas de não. ‘Vamos fazer o jogo do desmaio?’, ‘de forma alguma vou fazer isso, não vou querer ficar sem jogar futebol, isso aí vai tirar o controle das minhas pernas’; ou então: ‘eu lá vou fazer isso? Vou ficar sem pensar, eu não vou conseguir passar no vestibular nunca. Isso aí afeta o cérebro’. Então, ele começa a dar uma resposta por cima e inserindo nisso uma sequela que já informa o amigo que convidou o que é que pode acontecer com ele.

Trilha de fundo

Marcelo Abud:
O acesso às brincadeiras e desafios acontece no contato com os amigos  ou por meio de vídeos na internet, sem consciência das possíveis sequelas físicas e do risco de morte a que se sujeitam. É preciso estar atento a sinais físicos, mudanças de comportamento e a objetos estranhos nos ambientes da casa.

Com apoio de Daniel Grecco, Marcelo Abud para o Instituto Claro.

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