Uma busca na plataforma Google Play encontra um resultado curioso: cerca de 40 jogos nos quais a figura do presidente Jair Bolsonaro aparece, geralmente com protagonismo. Além desses jogos, há também diversos apps ligados ao “mito”. Enquanto isso, há apenas seis jogos em que figuram os demais candidatos da última eleição presidencial, Fernando Haddad (três jogos), Cabo Daciolo (dois) e Ciro Gomes (um). Um capítulo à parte, porém, são os games contra Lula ou a esquerda de maneira geral, ao menos doze.

Diferentes artefatos culturais (charges, cartazes, pichações, montagens fotográficas, panfletos) glorificam determinados indivíduos, ridicularizando seus oponentes. Dessa forma, como os jogos digitais constituem uma mídia expressiva de nosso tempo, o seu uso político não surpreende tanto; chama mais a atenção a predominância conservadora nesse campo. A capacidade dos games se referirem à realidade é também atestada por um recente jogo satírico sobre o episódio “Jesus no Pé de Goiaba”. O jogador, caracterizado como Jesus, deve subir numa goiabeira, escapando das frutas que caem.

O comentário social nos jogos com Bolsonaro, entretanto, é menos singelo. Utilizando características do personagem, a tônica geral é a da violência (o que já acontecia no polêmico jogo Bolsomito 2K18, comentado na coluna “Valores nos jogos e jogos com valores”). O “mito” é apresentado como um avatar, por meio do qual os jogadores devem eliminar ou evitar diferentes antagonistas: políticos de esquerda (casos de “Bolsonaro Terror do PT”, “Bolsonaro Contra os Petralhas” e “Bolsonaro contra a esquerda”), marginais (que podem ser associados à esquerda, como em “Bolsonaro – O Agente 17”), facadas (“Bolsonaro em: Bolsoknife”) e até fake news (“Bolsonaro Contra Fake News”).

Do mesmo modo que no caso das piadas ofensivas, os limites expressivos nos jogos são ampliados e, na fronteira da agressão ou da calúnia, o criador sempre pode dizer: “é apenas um jogo”. Outra estratégia de defesa, análoga, utilizada pelos autores é observarem, em paratextos dos jogos, que o produto é ficcional e “qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência” ou, ainda, que os desenvolvedores não apoiam agressões ou preconceitos (a despeito do conteúdo do jogo).

Isso, entretanto, não muda o fato de que a transferência da disputa política para a lógica dos confrontos de games é complexa e problemática, exigindo reflexão. Ao transformar os adversários legítimos em “inimigos”, não se perde a característica essencial da democracia, que é o respeito aos que pensam diferente? Há limites para a representação grotesca ou caluniosa dos adversários?

Não se deve, a princípio, estigmatizar esses artefatos ligados a Bolsonaro (e também a outros políticos, ver a imagem a seguir) – uma crítica mais séria a eles precisa ser ainda desenvolvida. No entanto, interessa destacar que muitos jovens provavelmente ouvem em ambientes escolares discursos sobre a importância da democracia e, em outros momentos, jogam games que parecem negar essa ideia. “É apenas um jogo”, se pode dizer.

Telas dos jogos “Bolsonaro – O Agente 17”, “Super Haddad”, “Ciro Gomes SPC” e “Bolsonaro-fight lutando contra a corrupção” (crédito: reprodução)

 

Também, é possível que essa tenha sido uma das respostas dos autores do infame jogo de tabuleiro Juden Raus!, nome que significa algo como “Fora, judeus!”, no qual o objetivo dos jogadores era capturar judeus e colocá-los fora do tabuleiro que representava o Estado alemão. É claro que na escola nazista da época desse jogo (meados da década de 1930) ele nunca poderia ser tema de crítica e análise. Por outro lado, é possível que na “escola sem partido”, desejada por muitos apoiadores de Bolsonaro, os jogos políticos de aplicativos também sejam vetados como objetos de estudo.

Bem se vê, portanto, o tamanho do desafio a ser enfrentado por aqueles que, nos próximos anos, pretendem promover o letramento crítico em mídias (no caso, especificamente em jogos) e a educação política de teor mais elevado, promotora da cidadania e da reflexão.

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