“A gente precisa questionar a escola sempre que a escola não gere jovens questionadores.

Então, é papel de todo mundo cuidar e contribuir para a escola.”

(Paula Gomes sobre o que acredita ser o principal papel da escola)

 

Desde que estreou no início de 2017, “Jonas e o circo sem lona” tem suscitado discussões em torno da delicada relação entre educação e arte no ambiente escolar. No documentário de Paula Gomes, Jonas Laborda tem 13 anos e vive fazendo malabarismos entre o sonho de seguir a carreira no circo itinerante de sua família e a realidade de uma escola pública na periferia de Salvador, uma das regiões mais violentas do país.

Logo nas primeiras cenas vemos o adolescente organizando uma sessão de circo com os amigos no quintal da casa dele. Os meninos estão em férias e as atrações atraem olhares curiosos de crianças da região, que assistem ao espetáculo.

O conflito começa no retorno às aulas. Jonas não encontra espaço para viver seu sonho na escola e tem cada vez menos ânimo para frequentar aquele local. A mãe tenta dissuadir o garoto da ideia de abandonar os estudos para ingressar no circo itinerante comandado pelo tio em outra cidade. Vilma faz isso com base em sua própria história: por crescer viajando com o circo da família, não conseguiu se dedicar aos estudos e atribui a esse fato a dificuldade de possuir uma atividade profissional que garanta melhores condições de vida ao filho.

É nessa corda bamba – representada pela responsabilidade que o amadurecimento traz – que o filme se equilibra. Jonas busca na alegria e improviso dos espetáculos circenses que tenta organizar o apoio para suportar as angústias que sente quando está em sala de aula.

Escola é local decisivo

Para a diretora do filme, ouvida nesta reportagem, “Jonas e o circo sem lona” critica a educação formal, “quando olha para alunos tão diversos de uma forma única, sem entender a diversidade”.

Ainda segundo Paula, a premissa do documentário é trazer à tona questões como “o que a gente faz com nossos sonhos quando cresce? Onde é que a gente coloca os sonhos?”.

Em uma das falas mais provocativas do filme, a diretora afirma que a escola não é lugar de brincadeira. “Foi doloroso passar por tudo isso, mas também foi bonito, também foi um aprendizado novo. Os professores que participaram do filme entenderam muito”. Na entrevista, Paula revela o que aconteceu depois da exibição de “Jonas e o circo sem lona” em escolas.

Agora com 19 anos, Jonas é convidado a dar oficinas de circo para os alunos e tornou-se uma referência para a escola onde estudou. Mas o jovem, após a trajetória do filme,  também passou a dar mais valor aos estudos e pretende ingressar em uma faculdade de cinema, quando terminar o supletivo.

“Assim que acabaram as filmagens, a mãe deixou ele ir para o circo. Ele foi e duas semanas depois voltou porque disse que agora quer fazer cinema. Ele está terminando a escola agora e está no nosso coletivo”, conta Paula. Jonas já fez alguns cursos de atuação, fotografia e direção na área do audiovisual. No próximo filme do Coletivo Plano 3 Filmes, além de atuar, ele também é o segundo assistente de câmera. Intitulado “Filho de boi”, a película será uma ficção e deve ser lançada ainda em 2017.

Sobre esse próximo título, Paula visitou mais de 30 escolas no sertão da Bahia e perguntou aos alunos quem tinha um sonho e já estava lutando para realizar esse sonho. Foi nesse universo que a diretora encontrou os protagonistas para as filmagens. “Foi maravilhoso descobrir como muitos dos sonhos desses meninos passam pela escola. Como a escola está sendo decisiva. Um exemplo é um menino, filho de uma família muito religiosa, que quer ser dançarino contemporâneo. Ele não encontrou tanto apoio na família, mas a diretora cedeu uma sala para ele ensaiar, para ele montar uma apresentação para o fim do ano. De fato, quando a gente critica a escola, não é para desacreditar, é porque a gente acredita muito nesse papel que a educação tem”, conclui.

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