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O período de férias aproxima, novamente, muitos adultos das brincadeiras. O contato com as crianças faz com que se lembrem do quanto o brincar é importante para as novas descobertas. É justamente a valorização da manutenção de aspectos da “meninice”, mesmo quando se amadurece, o que Paulo Freire transmitiu à sua prima Nathercia Lacerda.

A arte-educadora lida com educação infantil e teve nas cartas com o patrono da educação brasileira inspiração para os caminhos que segue. “Ao longo da vida, eu não pensei muito no que essas palavras poderiam ter movido em mim. Ao escrever o livro, fui entendendo como brincar é estar vivo, é um olhar para o outro para além da casa. Toda minha trajetória profissional foi pautada por essas indicações”, afirma em entrevista ao podcast do Instituto Claro.

Envelopes das cartas enviadas a Nathercinha, a “amiga mais nova” (crédito: livro “A Casa e o mundo lá fora”)

 

No livro “A Casa e o mundo lá fora”, que inclui as cartas originais com a caligrafia de Paulo Freire, ela resgata a forma como o pedagogo se dirigia a uma criança. Nathercinha era chamada de “amiga mais nova”. A correspondência aconteceu durante os anos da ditadura no Brasil, entre 1967 e 1969, quando o educador estava exilado no Chile.

Árduo defensor do conhecimento como ferramenta para a autonomia, Freire elaborou seu diálogo com Nathercinha baseado no zelo, na ternura e nas saudades do lar. Com isso, busca atiçar na garota a curiosidade ao descrever as belezas e problemas de um país estrangeiro.

Ilustração de Bruna Assis Brasil representa a Nathercinha de antes e agora (crédito: livro “A Casa e o mundo lá fora”)

 

A mensagem que enfatiza é a de que a menina nunca perca a graça da infância. “Vocês vão ver que a gente nunca para de estudar. Há sempre muita coisa para a gente aprender, mas a vida não pode ser só estudo. A gente também precisa brincar. Até quando a gente já está grande, como mamãe, papai, como eu que já estou ficando de barba branca, a gente precisa brincar”, recomenda, numa das cartas.

Transcrição do áudio:

Nathercia Lacerda:
Ao escrever o livro, relendo as cartas, eu vi o quanto que, em algumas indicações que ele me dava: ‘não deixe morrer a menina de hoje, deixe que ela siga com você’; a importância do brincar, como que brincar é estar vivo também. E aí eu vi que, na verdade, toda minha trajetória profissional foi pautada por essas indicações.

Marcelo Abud: Esta é Nathercia Lacerda, prima de segundo grau de Paulo Freire.

Som de página de livro sendo virada

Vinheta: “Livro Aberto – Obras e autores que fazem história”

Música instrumental, de Reynaldo Bessa, de fundo

Marcelo Abud: Entre 1967 e 1969, exilado no Chile, Paulo Freire troca cartas com Nathercinha. As mensagens enviadas para a “amiga mais nova”, como o educador a chamava, estão reunidas no livro “A Casa e o mundo lá fora”.

Nathercia Lacerda:
O inédito disso seria assim: Paulo Freire escrevendo para uma menina de 9 anos, enquanto ele escrevia ‘Pedagogia do Oprimido’. Porque isso não existe, ele falando com criança, ou seja, esse registro de livro. E é importante para quem estuda Paulo Freire, pra quem trabalha com formação de professor.

Som de página de livro sendo virada

André Tavares:
“Quinta carta…”

Marcelo Abud:
André Tavares, em audiobook lançado pela Ubook e Zit Editora

André Tavares:
“Santiago está uma beleza nesta época, somente que muito quente. E como já estou acostumado com o frio do inverno, sinto muito calor.

Continuo trabalhando muito e estudando também. Vocês vão ver que a gente nunca para de estudar. Há sempre muita coisa para a gente aprender, mas a vida não pode ser só estudo. A gente também precisa brincar. Até quando a gente já está grande, como mamãe, papai, como eu que já estou ficando de barba branca, a gente precisa brincar. Só que o brinquedo da gente grande, às vezes, já não é igual ao dos meninos. E tem gente grande que fica zangada quando os meninos querem brincar. Essa gente grande se esqueceu de quando era menino. Brincando a gente aprende muito, mas é preciso também estudar seriamente. O jeito que tem é equilibrar o brinquedo com o estudo. Espero que vocês façam sempre assim.”

Santiago

8 de janeiro de 69

Nathercia Lacerda:
A infância tem uma coisa muito interessante que é a capacidade de estar permanentemente construindo o mundo, permanentemente refazendo o mundo. Criança quando pega uma cadeira, a cadeira é milhares de coisas. Ela é cadeira, mas ela também é casa, ela também é carrinho, mas ela também é ônibus, mas ela também é uma ponte. Então, essa capacidade de você olhar pras coisas do mundo como algo em permanente construção, né, um mundo que não é dado, que é construído por nós, por cada um de nós.

Música “Bola de meia, bola de gude” (Fernando Brant e Milton Nascimento), com Skank e 14 Bis
“E me fala de coisas bonitas que / Eu acredito que não deixarão de existir / Amizade, palavra, respeito / Caráter, bondade, alegria e amor / Pois não posso, não devo / Não quero viver como toda essa gente insiste em viver”

Som de página de livro sendo virada

Nathercia Lacerda:
Muitas vezes, as situações nos trazem a sensação de que o mundo já está dado, já está feito, já está construído, que não há nada mais a fazer a não ser se deixar levar por esse mundo, pela estrutura como o mundo se organizou. E não é isso! Esse olhar pra infância e pra meninice é basicamente isso: olhar o que está em volta, estar junto e saber que tudo é construído a cada momento e não só individualmente, mas principalmente coletivamente.

Música “Me Gustan los estudiantes” (Violeta Parra)
“Me gustan los estudiantes / Porque son la levadura / Del pan que saldrá del horno / Con toda su sabrosura / Para la boca del pobre / Que come con amargura / Caramba y zamba la cosa / ¡Viva la literatura!”

Marcelo Abud:
Nathercia Lacerda lê um trecho da “Segunda Carta”, que recebeu do primo Paulo Freire quando tinha apenas 9 anos de idade.

Nathercia Lacerda:
“A Cordilheira dos Andes está ficando linda. Toda branquinha vestida de neve. Ontem, de tarde, eu fui com Elza, Madá e o marido dela ‘brincar’ de fazer boneco de neve, num morro que fica perto de nossa casa. Depois de um dia muito frio e chuva, o morro ficou parecido com um Papai Noel, só que em lugar de algodão era neve. É muito bonito tudo isso.”

Música “Volver a Los 17” (Violeta Parra)
“Es como descifrar signos / Sin ser sabio competente / Volver a ser de repente / Tan frágil como un segundo / Volver a sentir profundo / Como un niño frente a Dios / Eso es lo que siento yo / En este instante fecundo”

Marcelo Abud:
Nathercia comenta um outro trecho, que também está na segunda carta, escrita por Paulo Freire em 4 de junho de 1967.

Nathercia Lacerda:
Ele fala assim: “As árvores estão com suas folhas douradas, caindo nas ruas, nos jardins, nos parques. Muitas já estão sem folha nenhuma, como se estivessem mortas, mas não estão. Aguardam a primavera que só chega em setembro…”. Eu acho isso super bonito, porque esse ciclo que me encantava, esse ciclo da natureza tão marcante que ele me trazia através das cartas. Porque aqui no Rio de Janeiro, as árvores estão sempre cheia de flores [ri], então umas perdem as folhas, mas as outras já estão florindo, já estão frutificando. Então, isso me encantava muito. Assim, tudo parece que está seco, mas, na verdade, está tudo vivo. E o que está vivo, renasce, com cuidado, obviamente, cuidando para que esse renascimento possa acontecer.

Música “Cordilheira” (Paulo César Pinheiro / Sueli Costa), com Erasmo Carlos
“Eu quero ter a sensação das cordilheiras / Desabando sobre as flores inocentes e rasteiras / Eu quero ser da legião dos grandes mitos / Transformando a juventude num exército de aflitos”

Nathercia Lacerda:
E eu acho que isso a gente pode ter como imagem da América Latina hoje, por exemplo. As folhas estão caindo, as árvores estão secando, porém elas estão vivas. E aí a gente precisa cuidar coletivamente para que elas renasçam. E que essa sombra, essa alegria das flores e esse alimento dos frutos possa estar sendo compartilhado por todos e todas de cada um dos países, falando especificamente da América Latina.

Trilha de Reynaldo Bessa fica de fundo

Marcelo Abud:
Originado a partir de pesquisas de Cristina Laclette Porto e Denise Sampaio Gusmão e com ilustrações de Bruna Assis Brasil, o livro “A Casa e o Mundo lá fora – cartas de Paulo Freire para Nathercinha” conta ainda com reproduções das cartas originais com a caligrafia do educador.

Com apoio de produção de Daniel Grecco, Marcelo Abud para o Livro Aberto do Instituto Claro.

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