“É um bando de gente querendo mudar a comunidade,
não mudar da periferia, mas mudar a periferia.”
(Sérgio Vaz, no livro “Santo Amaro em Rede – culturas de convivência”)

O bar do Zé Batidão, na região da Piraporinha, zona Sul de São Paulo,
se transformou em centro cultural (Crédito: Ricardo Vaz)

Doutor em Ciências Sociais pela PUC, Marco Antonio Bin começou a pesquisar as periferias ao estudar os saraus poéticos e os impactos nas comunidades onde eram realizados. Há dez anos, o professor analisa a ideia da poesia como instrumento de cidadania, reconhecimento, visibilidade, protesto, manifestação e consciência política. Em recente artigo publicado na Revista “Comunicação e Educação”, da Escola de Comunicações e Artes da USP, analisa a produção cultural periférica sob o prisma do maior acesso à tecnologia digital. Denomina de ‘periferias digitais’ a capacidade que a comunicação pelas redes tem de expandir os saraus do espaço físico para um alcance mundial. O sociólogo cita as formas coletivas e associativas de se produzir conhecimento, informações e audiovisuais como caminhos de inserção dos grupos periféricos na sociedade. Segundo ele, “são movimentos que contagiam o entorno, contagiam as pessoas”.

Uma das primeiras barreiras que o sarau da Cooperifa ultrapassou foi a de saltar os limites do Bar do Zé Batidão para chegar ao mundo, a partir do blog e posteriormente das redes sociais de um de seus fundadores, o agitador cultural Sérgio Vaz. Desse modo, os movimentos, antes conhecidos apenas pela comunidade do Jardim Guarujá e dos integrantes do sarau, tornaram-se universais. “Não era mais necessário aguardar as noites de quarta-feira para saber o que tinha ocorrido, e o que ocorreria em termos de atividades culturais durante o resto da semana”, afirma Bin. Os meios digitais criaram um contato inédito com os jovens poetas de outras periferias, restritos às suas quebradas, que passaram a se integrar pela palavra e pela ação. O sarau agora é visível a todos, a partir das imagens que revelam a intensidade de cada encontro.

A redescoberta da poesia pelos jovens da periferia tem um marco em 2001, quando Sérgio Vaz e outros ativistas culturais organizam os primeiros saraus. Um dos idealizadores da Cooperativa de Poetas da Periferia (Cooperifa), Sérgio Vaz revela, no áudio, como surge a intenção de transformar um bar em centro cultural e estimular a comunidade a se voltar para a leitura e à atividade poética. Segundo ele, nesses saraus “a poesia desce do pedestal e beija os pés da comunidade, quando a literatura se despe da arrogância e chega ao leitor”.

O poeta Vaz cita que conheceu vários jovens que continuaram tendo estímulo ou voltaram a estudar e que alunos de escolas da região começaram a frequentar os saraus. “Os alunos começaram a se interessar pela literatura. Jovens escreveram seus próprios livros e há uma biblioteca dentro do bar”. Cita ainda a ação denominada “Chuva de Livros”, em que são distribuídas centenas de obras – cedidas pelas editoras – gratuitamente. “A gente dá o livro pro jovem não falar que não compra, porque é caro. A gente está traficando informação. Assim como traficantes, as primeiras doses são grátis. Depois, se ele quiser, que vá na biblioteca sustentar o vício”, conclui.

Para Marco Antonio Bin, movimentos de educação não-formal têm permitido uma leitura mais ampla de mundo em muitas áreas: “artes, escrita, questões sociais, políticas, antropológicas, religiosas, tudo é contemplado nessas atividades”.

Créditos:

As músicas utilizadas na edição do áudio, por ordem de entrada, são: Vasilhame (Criolo), Quilombo Cultural (Jairo Periafricania & Poesia Samba Soul), Até me emocionei (Criolo).

Links:

Aqui você acessa o artigo “Periferias digitais: mobilização para além da resistência”, escrito por Marco Antonio Bin;
– Assista a um momento da Cooperifa compartilhado nas redes sociais

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