O processo de queda do Muro de Berlim começou em 9 de novembro de 1989, após  28 anos de sua construção. Tendo como gancho as três décadas da data, o docente do mestrado em ciência política do Instituto Euro-Americano de Educação, Ciência e Tecnologia, Carlos Federico Domínguez Ávila, aponta desdobramentos contemporâneos que podem ser trabalhados pelos professores da educação básica com seus alunos.

“A globalização pode ser assunto para o ensino fundamental. Já a queda do muro pode ser abordada no ensino médio nas disciplinas de história, sociologia e também de geografia, já que resultou em mudanças de fronteiras no mundo”, explica.

“Também sugiro ao professor abordar a questão dos muros, que ainda existem no mundo. Exemplos são aqueles que dividem Israel da Palestina; a Turquia da Síria e aquele que o governo Trump deseja construir na divisa entre Estados Unidos e México – os dois últimos para impedir fluxos migratórios”, aponta.

Ávila recomenda, ainda, a divisão dos países em blocos econômicos, o Brexit – junção das palavras inglesas Britain (Bretanha) e exit (saída), que nomeia o processo de saída do Reino Unido da União Europeia – e a atual polarização política vivida no Brasil como temas que podem ser associados à data. Confira! 

Qual a importância histórica do Muro de Berlim?

Carlos Federico Domínguez Ávila: Ao final da Segunda Guerra Mundial, a Alemanha – que perde o conflito – é dividida entre os aliados como parte de um acordo, assim como a cidade de Berlim. A República Democrática Alemã (RDA), a Alemanha Oriental, fica a cargo da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Já a República Federal Alemã (RFA), a Alemanha Ocidental, dos Estados Unidos (EUA), França e Inglaterra. O muro que divide a cidade em duas perdurou de 1961 a 1989 e era símbolo da Guerra Fria e do conflito entre países ocidentais e socialistas. Sua queda simboliza o fim desse período e evoca mudanças em todo o mundo. Uma curiosidade é que, pesquisando os documentos do Itamaraty que os diplomatas enviavam ao Ministério das Relações Exteriores, a incorporação da Alemanha Oriental pela Ocidental não era algo obrigatório, mas relatado como uma possibilidade. Eles narram a opção da Alemanha Oriental de continuar um país autônomo.

Qual a importância da queda em relação ao capitalismo?

Ávila: Economicamente, a queda do muro implica no declínio da URSS e do bloco soviético. Os países do bloco passam a migrar para uma economia de mercado, capitalista. A Alemanha Oriental é incorporada pela Ocidental para se tornarem a quarta maior economia do mundo. Após o acontecido, o tema “Guerra Fria” cede espaço para o tema “globalização”.

Quais foram os desdobramentos desse acontecimento?

Ávila: Houve desdobramentos no plano local, nacional e global. Berlim passa por um processo de reestruturação urbanística e a cidade é integrada. A Comunidade Econômica Europeia passa a se expandir como bloco: se torna a União Europeia e chega hoje a 27 estados. Países de antiga orientação socialista são aceitos no grupo quando aderem a uma economia capitalista e à democracia – caso da República Checa, Hungria, Romênia, Polônia e Bulgária. Esse modelo de bloco, que incentiva a integração econômica, social e cultural entre os países do mesmo continente, inspira a criação do Mercado Comum do Sul (Mercosul), em 1991. Por fim, tal conflito de natureza ideologia – capitalismo versus socialismo – perde força no mundo.

Quais problemáticas contemporâneas podem ser relacionadas a esse evento?

Ávila: Na parte leste da Alemanha, é onde existe, hoje, uma forte organização de grupos neofacistas com discurso nacionalista e xenófobo. Sobre a dinâmica dos blocos econômicos, temos hoje o Reino Unido deixando a União Europeia (Brexit), indo contra um movimento de globalização que se inicia após a queda do muro. E é algo inédito, um país querendo sair do bloco da União Europeia quando há tantos outros com desejo de ingressar.

O tema e seus desdobramentos podem ser abordados em que etapas de ensino e disciplinas?

Ávila: Globalização pode ser assunto para o ensino fundamental. Já a queda do muro pode ser abordada no ensino médio nas disciplinas de história, sociologia e também de geografia, já que resultou em mudanças de fronteiras no mundo.

Como o professor pode trabalhá-lo em sala de aula?

Ávila: Sugiro abordar quatro temas. O primeiro é a questão dos muros, que ainda existem no mundo. Exemplos são aqueles que dividem Israel da Palestina; a Turquia da Síria e aquele que o governo Trump deseja construir na divisa entre EUA e México – os dois últimos para impedir fluxos migratórios. Muros têm o objetivo de segregar e dividir. Um segundo ponto é que as transformações políticas e sociais podem ser pacíficas. Pensando que vivíamos um contexto de Guerra Fria, a queda do muro não foi significativa em termos de mortes. Nos arquivos dos diplomatas brasileiros ao Itamaraty, havia a preocupação de que o governo da Alemanha Oriental reprimisse violentamente as manifestações, como fez a China no Protesto na Praça da Paz Celestial, em 1989. Mas ele não o fez. Em terceiro lugar, destaco o tema das polarizações, que vivemos hoje no Brasil e tem consequências negativas. Impede-se uma convivência republicana, na qual todas as ideias têm espaço, são toleradas e pessoas podem se expressar. Por fim, é possível refletir sobre as democracias. Por um lado, o socialismo na Alemanha Oriental e URSS tinha um caráter autoritário e cerceava a liberdade. Por outro, garantia direitos sociais. Já em regimes capitalistas, há democracia acompanhada de injustiças sociais severas e desigualdades.

Veja mais:
Plano de aula – A queda do Muro de Berlim (1989)
Revolução Russa completa 100 anos com desdobramentos contemporâneos

Crédito da imagem: NatalyaLucia – iStock

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