O World Café é uma metodologia ativa de aprendizagem idealizada por Juanita Brown e David Isaacs, que pesquisavam procedimentos organizacionais e diálogo. Ela consiste em pequenos grupos de pessoas, dispostos em mesas redondas, e na rotação dos participantes por elas em cada rodada.

“Às vezes, as pessoas estão em uma reunião grande, na qual há protocolos sobre como se comportar e agir, e não chegam a uma conclusão sobre um determinado problema. Em contrapartida, é em uma conversa informal no café que aquela situação é resolvida. A ideia era trazer esse ambiente para a aprendizagem, como uma metodologia”, explica a bióloga e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Michelle Sampaio.

“A proposta é que os participantes estejam juntos em um diálogo diferenciado”, explica ela, que é uma das pesquisadoras de World Café no Brasil.

Como o World Café foi descoberto?

Michelle Sampaio: O World Café foi descoberto por coincidência. Estavam em um evento e choveu, o que obrigou todos os participantes a irem para uma sala pequena. Eles foram divididos em pequenos grupos de conversa. Uma pessoa ouviu o que o pessoal do lado estava comentando e disse que queria saber mais sobre o eles falavam. Houve, então, o intercâmbio de pessoas pelas mesas e os organizadores perceberam que algo extraordinário havia acontecido.

Como o World Café funciona?

Sampaio: O ideal é o mínimo de doze pessoas, divididas em grupos de quatro. Não há número máximo de participantes: houve World Café com até duas mil pessoas. São no mínimo três rodadas de 20 minutos. É realizada, por vez, uma pergunta que se conecta com o propósito da atividade. Pode ser também uma única pergunta em todas as rodadas. Após cada uma delas, os participantes (chamados de viajantes) mudam de mesa. O ideal é que não se sentem com as mesmas pessoas. Uma pessoa pode permanecer (ou não) na mesa para contar o que já foi discutido aos viajantes que chegam, mas não é obrigatório. Nesse modelo, a pessoa que permanece é chamada de anfitrião. Além disso, papéis são deixados para as pessoas desenharem (chamadas de toalhas de mesa). Mas não é indicado usá-los para escrever atas, por exemplo, mas para fazer desenhos criativos e lúdicos. Na última rodada, o que foi discutido é sintetizado por todos e os desenhos podem ser analisados.

Quais são as orientações para a atividade?

Sampaio: A primeira é ter foco na proposta da atividade, que é diferente do objetivo. A proposta é a direção, o caminho a ser seguido. Podemos ir mais pela direita ou esquerda, mas chegaremos no ponto desejado. A proposta é o roteador. A segunda é que cada participante deve contribuir com o seu conhecimento. Ou seja, evitam-se citações como “fulano disse isso”. A terceira é falar com intenção e não ser prolixo. A quarta é escutar o outro com curiosidade. Às vezes, escutamos já pensando na réplica, ou na tréplica. O World Café prega o oposto disso. O que posso aprender dentro dessa perspectiva que não pensei antes?

Quais são suas contribuições para a aprendizagem?

Sampaio: Por meio do World Café, são realizadas conexões e contribuições sobre o assunto discutido. Falamos que há uma polinização de ideias, que são filtradas em cada rodada. Se há divergências, essas são postas à mesa e iluminadas.

Entre seus benefícios, está mostrar a diversidade de pensamentos. Parte-se do princípio que ter opiniões diferentes não coloca as pessoas em campos opostos. É um convite para uma conversa entre diferentes, para elucidar essas diferenças.

Como metodologia ativa, mostra que é possível aprender com os colegas, além dos professores. Por meio do diálogo, surgem ideias e propostas. Há uma inteligência coletiva, e o aprendiz não precisa aprender sozinho. É possível ser sábio junto.

Como deve ser a pergunta norteadora?

Sampaio: A pergunta é um poderoso iniciador de conversa. Deve estar focada muito mais no “como” do que no “o quê”. Os participantes expõem como a sua experiencia se conecta com a pergunta, a partir de seus pontos de vista

O World café é usado somente em disciplinas de humanas?

Sampaio: Não, ele é indicado para todas as áreas, e tanto para disciplinas conteudistas quanto abstratas.

Quais as orientações para os professores?

Sampaio: Tentar vivenciar a atividade na prática, participando de um World Café antes de aplicar. Encontrar informações tanto nas comunidades nacionais quanto internacionais dessa metodologia.  Formular perguntas que se conectam com o propósito da atividade e incentivar todos a se escutarem. A não-escuta é problema-chave.

Veja mais:
5 perguntas sobre aprendizagem entre pares
Aprendizagem cooperativa ensina comunicação, gestão de conflitos e valorização da diversidade

Crédito da imagem: monkeybusinessimages – iStock

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