Para explicar os cariótipos, a professora de biologia da rede estadual do Rio de Janeiro, Karla Dias, preparou uma aula especial, na qual os próprios alunos elaboravam diferentes conjuntos cromossômicos a partir de canudos. Quando anunciou a atividade, dois estudantes que haviam reprovado contaram a ela que haviam sentido dificuldades em entender o conteúdo daquela forma no ano anterior. A professora, então, explicou os cariótipos a partir de imagens e a dupla se sentiu contemplada. “O mais importante era os alunos saberem que havia um acompanhamento próximo e que eles que tinham liberdade para expor suas opiniões. Isso fez a diferença”, pontua.

O caso vivenciado por Dias reúne três elementos que são importantes para apoiar o aluno reprovado durante a sua trajetória no ano posterior: acompanhamento, escuta de suas necessidades e, se necessário, reavaliação das práticas de ensino e aprendizagem.

“Quando uma reprovação ocorre, a meta do próximo ano deve ser, imediatamente, sanar dificuldades do aluno em aprender e do professor em ensinar. Se foi um ano que o docente ficou a maior parte no giz e na lousa, não dá para repetir isso no ano que vem”, analisa o professor de ensino fundamental I e educação infantil na rede municipal de São Paulo, José Rosemberg. Ele próprio vivenciou uma situação similar.

“Uma aluna não havia entendido um determinado conteúdo. Ao tentar explicar novamente, ela argumentou: ‘eu ouvi o que você falou, mas não compreendi’. Nesse momento, percebi que eu estava era repetindo o que havia dito anteriormente, não explicando”, relembra. “Foi quando eu busquei alternativas. Procurei filmes e exemplos para sensibilizá-la e para conectar aquele conteúdo com a sua vida”, aponta. Ainda segundo Rosemberg, um erro comum é dizer que o aluno reprovado “não entendeu nada”. “O importante é identificar o ponto específico que ele não entendeu”, ressalta.

Trabalho em conjunto

A busca por novas práticas, contudo, exige planejamento. “As possibilidades são muitas: aderir a tecnologias, dramatização, buscar o apoio de alunos mais velhos para reforço etc. Mas não se deve fazer isso ‘atirando para todos os lados’, mas de forma sistematizada, com momento de avaliação e retomada”, opina o professor.

Para Karla Dias, a função do coordenador pedagógico também é fundamental nesse processo. “Cada caso de reprovação é um caso, por isso, alunos retidos devem ser acompanhados de perto. Às vezes, há situações que podem estar além da escola, como problemas sociais, familiares e cognitivos. Nesse sentido, o trabalho da coordenação ajuda a agregar o corpo docente e a família, que também tem seu papel”, pontua.

Contudo, Rosemberg confessa que o acompanhamento estruturado ainda é incomum nas redes públicas. “Fica somente a cargo daquele professor que é comprometido e que nem sempre consegue dialogar com seus pares. É um trabalho isolado”, lamenta Rosemberg.

Além disso, outros problemas prejudicam o acompanhamento individualizado do aluno retido, como classes superlotadas, mudança de professores e pouca carga horária semanal da disciplina.

Para estreitar laços, Dias disponibilizou aos estudantes suas redes sociais visando o esclarecimento de dúvidas. Certa vez, uma aluna que havia sido retida no ano anterior percebeu que não compreendia divisão celular e a acionou. “Consegui ajudá-la por mensagem de áudios, mostrando imagens e apontando os locais do livro onde ela poderia encontrar respostas para as suas questões”, revela. “Quando o estudante percebe a porta aberta para o diálogo, se encoraja a procurá-la”, garante.

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