Na música “As Caravanas”, o compositor Chico Buarque narra a trajetória de jovens da periferia que tentam visitar a praia de Copacabana. Contudo, são discriminados pela população da zona sul carioca e impedidos pela polícia de chegar ao seu destino. “A gente ordeira e virtuosa que apela. Pra polícia despachar de volta. O populacho pra favela”, descreve o compositor.

A canção foi vista pelos professores de história Ana Beatriz Ramos de Souza e José Marcos de Assis Couto Júnior como uma oportunidade de trabalhar o tema da invisibilidade social com seus alunos do ensino fundamental 2. A dupla leciona na Escola Município Áttila Nunes, no bairro de Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro (RJ).

“Na invisibilidade social, você generaliza o outro e o decreta como pertencente a um único espaço. É exercida, na prática, pelo preconceito”, destaca Júnior. “Na música, os jovens eram invisíveis e, quando passam a serem visíveis para a sociedade, incomodaram”, sintetiza.

“O objetivo do projeto era que os estudantes percebessem a sua realidade na periferia, mas também encontrassem novos ambientes na cidade, apropriando-se desses espaços”, explica Souza.

“O objetivo era que os estudantes percebessem a sua realidade na periferia e se apropriassem de novos ambientes na cidade”, diz professora Ana Beatriz Ramos de Souza (crédito: José Marcos de Assis Couto Júnior/Acervo pessoal)

Mudança de percepção

Nas primeiras leituras e discussões da música, os alunos apresentaram dificuldades para enxergar que também eram invisíveis sociais. “Eles se referiam aos personagens da letra como os outros. Não se entendiam como pessoas que também sofriam. Que eram invisíveis ao poder público, por exemplo”, lembra o professor.

Aos poucos, contudo, os estudantes foram traçando relações da letra com situações que viviam no dia a dia. “Muitos relataram que eram perseguidos pelos seguranças quando iam ao shopping, como se aquele não fosse um lugar esperado que eles ocupassem”, relembra Souza.

Por outro lado, durante as discussões, a turma também identificou que praticava a invisibilidade com outros segmentos sociais. “Aqui mesmo, na escola, a gente não sabia o nome da maioria dos funcionários”, conta Sofia Souza, de 14 anos. “Eu percebi pessoas que, mesmo me ajudando muito no meu dia a dia, eu desconhecia”, conta o aluno Erick Matheus Teodoro Pereira, de 15 anos.

Após os estudantes se entenderem como pessoas que poderiam frequentar espaços diversificados na cidade, a dupla de professores adotou uma segunda iniciativa: levá-los para conhecer pontos culturais. “Depois de eles afirmarem sua identidade, o novo passo era perceber que havia um mundo além do bairro, do qual eles precisavam se apropriar. Nós fizemos uma vaquinha, alugamos um ônibus e passamos a levá-los ao teatro, ao museu, entre outros”, relata o professor.

“Eu percebi que não podemos ser invisíveis. Que todas as pessoas têm coisas maravilhosas para mostrar ao mundo e que precisamos ser visíveis para mostrá-las”, aponta o estudante Wendel Gabriel do Nascimento. “A gente começou a enxergar o mundo de forma diferente”, acrescenta Karoline Vitória Miranda de Oliveira.

Por fim, o projeto teve um terceiro momento, no qual os alunos foram convidados a lerem a lei áurea e escreverem uma versão que incluísse os negros libertos na sociedade. “O novo texto evitaria que essa população ficasse à margem da sociedade e excluída. O objetivo foi completar a noção de direito e de democracia”, finaliza a professora.

Em 2018, José Marcos foi escolhido o educador do ano no Prêmio Educador Nota 10, pelo projeto “As Caravanas: Limites da Visibilidade”.

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