Divulgado em 2018, o estudo “Decifrar o código”, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), apontou que as mulheres correspondem a apenas 28% dos pesquisadores de ciências, tecnologia, engenharia e matemática (sigla Stem, em inglês). Além disso, apenas 17 mulheres receberam o Prêmio Nobel de Física, Química ou Medicina desde 1903, contra 572 homens.

Para a professora do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Thereza Paiva, a escola possui um papel fundamental para aproximar as garotas das áreas de Stem. Esse foi o motivo que a fez criar o projeto “Tem Menina no Circuito”, em parceria com as docentes Tatiana Rappoport e Elis Sinnecke. Desde 2014, o trio desenvolve atividades de eletrônica (construção de circuitos feitos com tecido, papel e massinha) com grupos de alunas do ensino médio de duas escolas públicas de Nova Iguaçu (RJ).

“Para que os educadores incentivem a participação das meninas nas ciências, o ideal é que haja um espaço na escola apenas para elas. Em atividades mistas, é comum os meninos tirarem sarro das alunas quando essas erram, e elas se retraem. Também vemos que, ao misturar alunos dos dois gêneros, os meninos tendem a tomar a frente, e as alunas também não se sentem à vontade para perguntar e tirar dúvidas”, relata Paiva.

Desde 2014, projeto incentiva a participação das meninas nas ciências desenvolvendo atividades de eletrônica com alunas do ensino médio

 

Ela também indica utilizar atividades lúdicas e materiais que fazem parte da rotina das estudantes para que elas se sintam incentivadas a participar. “Se o professor convidar para uma ‘oficina de eletrônica’, ninguém irá aparecer”, conta. “Optamos por trabalhar com circuitos em tecido e papel porque eles são coloridos, tem textura e são fáceis de manipular. É como uma massinha: todo aluno fica instigado a brincar com esse material”, compara.

Para docentes e alunas da rede pública que desejam aprender mais sobre eletrônica têxtil e em papel, as coordenadoras do “Tem Menina no Circuito” oferecem algumas atividades e orientações no blog do projeto.

Inclusão social pelas ciências

No Colégio Estadual Alfredo Neves, a iniciativa acontece no contraturno, sempre às quartas-feiras. “O ensino é integral e nesse dia as alunas não têm aula à tarde. Assim, as atividades acontecem nesse horário”, explica Paiva. Segundo ela, o projeto não tem objetivo de ser um reforço escolar. “É mão na massa mesmo, com conceitos que  se relacionam com conteúdos”.

Para ela, a parceria com a direção e professores da instituição de ensino é importante. “Por exemplo, para as alunas que participamo, a direção conseguiu que fosse ofertado almoço. Eles também são essenciais para conseguir autorização com os pais nas atividades que fazemos fora da escola, como ida a museus”, descreve.

Como para muitas meninas o ensino médio representa a última etapa da escolarização, o trio de docentes também utiliza o projeto para aproximá-las do ensino superior. “Levamos as participantes na UFRJ, trazemos palestras com pesquisadoras de outras áreas e promovemos conversas com as graduadas de física, que atuam como monitoras da iniciativa na escola. As alunas começam a perceber que isso pode ser para elas”, relata.

“Trabalhamos com circuitos em tecido e papel porque são materiais que fazem parte da rotina das estudantes e são fáceis de manipular”, explica Thereza Paiva

 

É o caso da ex-secundarista Gabriella Galdino, que participou do “Tem Menina no Circuito” nos dois primeiros anos do projeto, em 2014 e 2015. Ela decidiu cursar física e ingressou na UFRJ. “Eu sempre gostei de exatas, mas falava que física era difícil. Com as atividades, percebi que é uma área desafiadora, mas com a qual gostaria de trabalhar. Essa minha escolha profissional está relacionada totalmente com essa minha experiência”, confessa.

Trabalhar como monitora também ajudou a estudante a desenvolver a paixão pelo ensino. “Optei pelo curso de licenciatura, e não bacharelado. Gosto de lecionar”, conta.

 Veja mais:
Distância entre mulheres e tecnologia começa na escola
Matemática não é coisa de menina? Como o preconceito de gênero influencia o aprendizado
Confira iniciativas para inspirar alunas interessadas em tecnologia

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