Em um contexto em que pais, professores e alunos são submetidos a um intenso fluxo de informações – muitas delas, falsas – o estudo da disciplina história pode ser fundamental para se pensar criticamente e evitar o ódio contra outros grupos. Essa é a opinião do historiador e diretor do Centro de Memória e de Pesquisa Histórica da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), Caio César Boschi. Ele é autor do livro “Por que estudar História?”.

“Somente por meio desta matéria é que conseguimos desnaturalizar as coisas e perceber a ação humana através do tempo. Ou seja, ela é um instrumento privilegiado para compreendermos, tentarmos anemizar e, se possível, ultrapassar, tanto ódio e violência que, tristemente, têm sido as marcas dos nossos dias”, justifica.

Por que a história se faz necessária na atual configuração social?

Caio César Boschi: História é vida. Vivemos e agimos historicamente, em todas as nossas atitudes. Somente por meio dela é que conseguimos desnaturalizar as coisas e perceber a ação humana através do tempo. Ou seja, ela é um instrumento privilegiado para compreendermos, tentarmos anemizar e, se possível, ultrapassar, tanto ódio e violência que, tristemente, têm sido as marcas dos nossos dias.

Qual a relação da disciplina com o intenso fluxo de informação e notícias que alunos e pais são submetidos?

Boschi: A relação é íntima e direta, pois não há imparcialidade em seu estudo. A manipulação da história sempre existiu e é condição imprescindível para aqueles que não querem perder privilégios ou que desejam justificar uma situação de dominação. É fundamental, portanto, que busquemos perceber, pensar e analisar historicamente a realidade em que nos inserimos. Exercitar a “filtragem” das informações que nos chegam é condição básica para repelir a passividade que, normalmente, os meios de comunicação social nos impelem, assumindo, assim, a indispensável condição de agentes e partícipes dessa realidade.

“Não creio que haja área do conhecimento mais rica e que gere mais consciência sobre cidadania do que a história”, enfatiza Caio Boschi (crédito: divulgação)

 

Fatos históricos têm sido mais rejeitados ou questionados do que no passado?

Boschi: Todos sabemos que a postura de rejeitar ou questionar são essenciais para a ultrapassagem de obstáculos do nosso cotidiano, como também para o avanço de qualquer área de conhecimento. Porém, como a etimologia da palavra indica, fato é algo acontecido, acabado e, por conseguinte, imutável. O que se altera são as versões, são as interpretações de e sobre ele.

Ao que você atribui isso?

Boschi: A história é, por natureza, dinâmica. É processo, é construção. Não há verdades acabadas. Seu estudo pressupõe, basicamente, a apreensão dos conflitos, das contradições, das diferenças, e não das identidades e das semelhanças. Por isso, a toda hora, devemos estar nos interrogando, posicionando-nos frente às perplexidades que a realidade nos apresenta.

A população em geral tem conhecimento sobre como fatos históricos são pesquisados e consolidados?

Boschi: De maneira geral, infelizmente, diria que não. Reafirmo que a história é instrumento de poder. Impedir ou diminuir o seu estudo é um explícito ato político. Não somente dela, mas das ciências humanas em geral. Não por acaso, mudanças radicais na ordem política, como temos vivenciado, sempre trazem consigo a obsessiva determinação de alterar seus conteúdos e interpretações. Em outros termos: deliberada e criminosamente busca-se redefinir o passado e reinterpretá-lo com vistas a legitimar a nova elite dirigente.

O que os professores precisam apresentar aos alunos para mudar essa realidade?

Boschi: Não há “receita do bolo”. Contudo, não creio que haja área do conhecimento mais rica e que gere mais consciência sobre cidadania do que a história. De conhecimento e de apropriação dos direitos civis e sociais. De percepção das mazelas sociais e dos desmandos e devaneios dos governantes. Em suma, e enfaticamente, a disciplina é, por excelência, instrumento de libertação. No mais amplo sentido da palavra.

O ensino de história pode ser “neutro”?

Boschi: Os juízos de valor não devem vicejar no território da história. Ela não é tribunal e nela não cabem julgamentos. Mas, que fique claro: a imparcialidade, repito, é uma falácia. Todos ser humano é parcial. O que não nos faculta derivar para o exercício do proselitismo [ato ou empenho de tentar converter/convencer uma ou várias pessoas em prol de determinada ideia]. Nesse sentido, seu ensino está voltado para a prática da empatia e da solidariedade, voltada, enfim, para a convivência com as diferenças e com os diferentes.

Veja mais:
Plano de aula – Como inserir os documentos históricos em pesquisas
Saiba como trabalhar conceitos de história nos primeiros anos do ensino fundamental
Como os objetos podem ensinar sobre contextos históricos?

Crédito da imagem principal: Renato Cobucci/site da Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais

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