“Os ex-escravos foram substituídos pela mão de obra imigrante”. A informação – repetida exaustivamente nos livros de história – não foi uma realidade em todo o Brasil. Essa e outras ponderações estão presentes no livro “Escravo, africano, negro e afrodescendente – A representação do negro no contexto pós-abolição e o mercado de materiais didáticos (1997-2012)”, da doutora em história pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), Mírian Cristina de Moura Garrido.

A seguir, a pesquisadora aponta alguns temas da história do Brasil e da África já levantados por pesquisas historiográficas, mas ainda não incorporados pela maioria dos livros didáticos do país.

Qual foi o problema que você identificou ao pesquisar a presença do povo negro nos livros didáticos?

Mírian Cristina de Moura Garrido: Eu estudei os livros educativos do ensino médio aprovados em 2008 para circularem nas escolas da federação, antes e depois de serem avaliados pelo Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Escolhi três autores e fui avaliar o pós-abolição, ou seja, como eles abordavam os ex-escravizados em seus livros. O tratamento não era positivo. Havia um nítido esvaziamento da discussão. O ex-escravo tinha praticamente desaparecido dos livros didáticos, pouco se falava o que aconteceu com ele. As publicações adotam uma explicação comum na historiografia de que essas pessoas foram substituídas pela mão de obra imigrante. Mas isso não foi verdade em todas as regiões do país, ainda que comum no estado de São Paulo.

O que precisa ser atualizado em relação ao negro no momento de pós-abolição?

Mírian Cristina de Moura Garrido: Há pesquisas sobre a migração dessa população da região de São Paulo e Campinas (SP), por exemplo, para o Rio de Janeiro, onde ela conseguia emprego mais facilmente nas indústrias. Assim, falta falar sobre as associações, os jogos de solidariedade e as formas com que os ex-escravos conseguiam empregos. Os livros apresentavam, ainda explicações mais drásticas: um dos autores afirmava que os ex-escravos prefeririam o ócio. Isso é extremamente problemático, pois você está falando dos antepassados de muitos alunos e professores – incluindo os meus. Por fim, essas pessoas deixam de aparecer e são substituídos por outros termos, como população pobre.

Faltam informações sobre o protagonismo negro nesse momento histórico?

Mírian Cristina de Moura Garrido: Os livros enfatizam a abolição sobre a perspectiva branca, omitindo as articulações dos escravos para a própria emancipação. Faltam os processos de fuga, de compra da liberdade, as associações negras de autoeducação que existiram posterior a escravidão. Assim, é necessário reforçar a noção de ancestralidade, para que as crianças entendam a riqueza dessas pessoas. Os escravizados não eram burros de carga que somente trabalhavam, eles tinham uma vida cotidiana. Ou seja, é preciso valorizar esses sujeitos históricos. Outra coisa que é pouco estudada é a historia dos retornados, dos ex-escravos que voltaram para a África. E abordar os quilombos e a importância desses espaços, hoje, como forma de resistência e de preservação de memória.

Quais outras mudanças se fazem necessárias em relação aos conteúdos de história da África?

Mírian Cristina de Moura Garrido: Também a noção de ancestralidade, e que as crianças entendam a riqueza que existe na África, superando a visão que o continente é só miséria. Nesse sentido, é fundamental conhecer o Egito, a Núbia, a Etiópia e o Congo – reinos livres e desenvolvidos, que travaram relações de comércio com a Europa. Saber que houve ciência, matemática, técnicas agrícolas no continente. Outro equívoco é que os livros colocam o colonialismo e o pós-colonialismo da África como “História da África”. Como a narrativa é contada apenas com a perspectiva europeia (porque invadiram e saíram do continente), isso não é história da África, ainda que esse movimento da Europa seja importante e tenha influência nos conflitos civis que ocorrem até hoje. É preciso repensar esse conteúdo a partir da perspectiva africana.

Qual a sua orientação para o professor escolher seu livro didático de história, pensando na questão do negro?

Mírian Cristina de Moura Garrido: Na pesquisa, observei que os livros didáticos do ensino fundamental estão melhores amparados do que os do ensino médio. A dica é os professores utilizaram o Guia dos Livros Didáticos, oferecido pelo PNLD. O guia traz as resenhas dos livros, escritas pelos professores das universidades que os avaliaram. As análises informam se as publicações abordaram a história da África, se a abordagem foi positiva e se são necessários complementos. Boas obras didáticas que tive contato foram os do Alfredo Bolos Júnior e do Gilberto Cotrim com o Jaime Rodrigues como coautor.

Como o professor pode ir além do livro didático na questão do negro?

Mírian Cristina de Moura Garrido: É importante o conhecimento das diretrizes curriculares nacionais para educação das relações étnico-racionais, do Ministério da Educação. Ela está online e traz conteúdos considerados importantes, mas sem fechar para o professor a forma de abordá-los e como adaptá-los à realidade da sua comunidade. Há materiais interessantes produzidos pela organização Geledés e vídeos disponíveis na internet, como o “Vista a Minha Pele”.

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