“Nos deram espelhos e vimos um mundo doente”. O trecho é a da música “Índios”, lançada pela banda Legião Urbana, em 1986 – momento em que o rock nacional se debruçava em letras permeadas por críticas políticas e análises sociais. A canção foi utilizada pelo professor de história e mestre em educação, Fábio Chilles, para ensinar sobre colonização aos alunos da Escola SESI 124, em Itapetininga (SP). A experiência também foi retratada em sua dissertação “‘O futuro não é mais como era antigamente’: o rock nacional e o ensino de história”, apresentada em 2018 na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

“A música trata dos dilemas existenciais do autor, mas há uma clara intenção de trazer à tona, em meio a esses dilemas, elementos históricos das sociedades nativas do Brasil durante e após o processo de invasão e colonização”, explica. “Assim, faz uma dura crítica à sociedade contemporânea evocando o processo de destruição física, cultural e moral dos povos nativos”, acrescenta.

Segundo Chilles, dentro da disciplina de história, a canção dialoga com conteúdos curriculares do ensino fundamental, como sociedades indígenas no território brasileiro e o encontro dos portugueses com essa população. Já no ensino médio, pode ser relacionada à vida na América antes da conquista europeia; aos encontros entre europeus e as civilizações da África, da Ásia e da América; e aos sistemas coloniais europeus.

“‘Índios’ remete com muita qualidade sobre os primeiros contatos; as primeiras trocas; a visão de tempo circular dos nativos versus a visão linear dos europeus; a visão coletivista das sociedades indígenas versus o ideal de acumulação dos europeus, já na fase mercantilista; o papel da religião cristã nesse processo; palavras de origem indígena que foram herdadas pelo nosso idioma, enfim, as características e contradições gerais da colonização”.

Avaliação em dupla

No trabalho realizado pelo educador, a obra foi usada como atividade de avaliação após a apresentação dos conteúdos sobre os povos europeus e os nativos do Brasil.

“Iniciei com aulas expositivas, análises de documentos (Carta de Pero Vaz de Caminha), leituras e exercícios do material didático e após os estudantes terem se apropriado de um conjunto de conceitos sobre o processo histórico em questão, foi solicitado que analisassem a música”, conta.

O trabalho deveria ser feito em casa, em duplas, e em ambiente tranquilo. “A ideia era ser um lugar que propiciasse uma interpretação mais pontual e cuidadosa dos aspectos históricos presentes na letra e também dos elementos propriamente musicais, como melodia, ritmo, instrumentos utilizados, escalas, clima geral, sensações produzidas no ouvinte, entre outros”, diz.

Além da análise textual, Chilles orienta os professores a trabalharem aspectos sonoros, mesmo que não tenham formação musical. “Na canção, há uma escala de teclado que vai ficando cada vez mais aguda no decorrer da obra e gera uma crescente tensão que é sincronizada com a temática angustiante da letra e a voz melancólica do cantor. Seria um desperdício ignorar esse tipo de aspecto”, alerta. “Os estudantes se sentem desafiados a encontrar elementos presentes nas entrelinhas das obras e suas relações com os conteúdos. Os resultados costumam surpreender”, garante.

Para isso, ele recomenda a utilização da versão de estúdio da música, lançada no disco “II”, de 1986. “Ela contém um conjunto de significações sonoras que não estão presentes em outras”, orienta.

No dia da entrega, as duplas compartilharam com a classe suas interpretações, verso a verso, com a mediação do professor.

Empatia histórica

Chilles recomenda outras formas de uso da canção nas aulas de história, como audição coletiva para introdução dos conteúdos curriculares ou para nortear a aula, abordando com os estudantes as estrofes ponto a ponto e, a partir delas, desenvolver os temas numa aula expositiva.

“Porém, notei um melhor aproveitamento ao utilizar a música no fechamento dos conteúdos. Os alunos já tinham condições de realizar uma interpretação mais completa e consistente da obra”, opina.

Sobre as vantagens de utilizar esse recurso pedagógico, o docente lembra que “Índios” é escrita em primeira pessoa e seu autor, o compositor Renato Russo, encarna um nativo fictício na narrativa. “Essa característica favorece um envolvimento mais pessoal dos estudantes com o personagem da canção e, por conseguinte, com o drama vivido pelas pessoas do passado nesse processo histórico, em particular. É o que o autor inglês Peter Lee chama de ‘empatia histórica’”, pontua.

“Além desse potencial de sensibilização, há a vantagem de se analisar uma obra da cultura popular que, apesar de imbuída de potencial crítico, foi produzida e comercializada nos moldes da indústria cultural. Isso possibilita ao estudante sofisticar sua capacidade de problematização e desenvolver um olhar mais crítico sobre os próprios produtos culturais que consome”, complementa.

Veja mais:
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Crédito da imagem: Ricardo Junqueira/reprodução site Legião Urbana

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