Osvaldo Fernando Moreira estava ansioso para o seu primeiro dia de trabalho como professor do 5º ano do Ensino Fundamental da rede municipal de Rio Claro (SP). Formado em Pedagogia, Moreira é cadeirante e cego. Ele já havia lecionado em uma instituição para alunos com múltiplas deficiências quando passou no concurso da Prefeitura.
“Minha chegada foi uma novidade na comunidade escolar e eu tinha dúvidas sobre como seria recebido pelos funcionários, alunos e escola”, confessa. “Mas, felizmente, as crianças são naturalmente curiosas e não têm medo de perguntar. Perguntaram se eu morava sozinho, se sabia cozinhar, como trocava de roupa e tomava banho. Fui respondendo, rimos e o gelo foi se quebrando”, relembra.
Professores com deficiência ainda são poucos na rede pública brasileira. Segundo dados de 2013 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira Legislação e Documentos (Inep), o País conta com aproximadamente seis mil profissionais lecionando na Educação Básica. Contudo, a presença do professor com deficiência é importante para aprofundar a discussão sobre diversidade e inclusão.
“É na convivência que eles percebem que não há diferença entre a pessoa com ou sem deficiência. Que temos capacidades, potencialidades, vida social, familiar e profissional”, aponta. “Já para os alunos com deficiência, há uma questão de inspiração. Eles entendem que podem estudar, passar num concurso público, ter a sua casa etc.”, relata.

Tolerância exercitada

Para muitos alunos, a escola é o primeiro local de contato com pessoas com deficiência. A professora Érica Aparecida de Fátima Santos, por exemplo, confessa que teve dificuldades em conquistar o respeito dos alunos, que não estavam habituados a conviver com um cego. Érica leciona História na Escola Estadual João Chiarini, em Piracicaba (SP).
“Quando se deparam com um professor com deficiência, a primeira ação de muitos é o desrespeito. Eles entendem que a pessoa que deve orientá-los é alguém com uma limitação. Só é possível mostrar que estão equivocados com apoios técnico e humano que supram nossas deficiências físicas, para que realizemos nosso trabalho com equiparação de condições”, pontua.
Érica conquistou na Justiça o direito a uma professora auxiliar. Para ela, a parceria com a outra profissional fez toda a diferença no relacionamento com a classe. “Hoje, para os meus alunos, eu não sou a professora que tem deficiência visual. Ou que eles podem fazer tudo o que querem porque eu não estou vendo. Sou apenas a professora de História”, decreta.

Tecnologia para autonomia

Valter Lenine Fernandes, professor de História da rede municipal de São Paulo, é surdo e também enfrentou dificuldades no início da sua trajetória profissional, quando ainda lecionava em escolas particulares.
“Porém, na minha primeira turma de alunos ouvintes, a experiência foi de troca. Os alunos desejavam aprender sobre a surdez e até os mais bagunceiros nutriram um respeito pela diferença”, relembra
“Já para os alunos surdos, ter um professor surdo entre professores ouvintes é um momento de questionamento. Entendem que, um dia, eles também podem estar seguindo a profissão que desejam e que a deficiência não é o limite, mas o caminho para a luta por espaços de maior inclusão”, destaca.
A infraestrutura também é um capítulo à parte na trajetória do profissional com deficiência. Em sua escola em Rio Claro, Osvaldo Fernando Moreira encontrou banheiros, salas e corredores adaptados – algo que ainda não é uma realidade em todo o País. Entretanto, o pedagogo ainda sente falta de mais elementos tecnológicos em sala de aula para uma maior autonomia.
“Eu tenho um computador adaptado com programa de voz. Uma lousa digital, por exemplo, me permitiria utilizá-lo. Além disso, há a parte burocrática. Muitos relatórios e formulários ainda devem ser respondidos à mão, não podendo ser digitados”, aponta.

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