Desigualdades de gênero, raça, território e deficiência marcam as taxas de reprovação, abandono escolar e distorção idade-série no Brasil. Alunos pretos e pardos, com algum tipo de deficiência e do gênero masculino foram os grupos que mais reprovaram nas escolas públicas brasileiras em 2018. As informações fazem parte de uma análise inédita feita pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) com o Instituto Claro com base nos dados nacionais sobre abandono, reprovação e atraso escolar do Censo Escolar, apresentada nesta quinta-feira (31/10), em São Paulo (SP).

Ao todo, escolas municipais e estaduais do país reprovaram mais de 2,6 milhões de estudantes no ano passado. Desses, 1,1 milhão se declararam pardos; 152 mil, pretos e 629 mil, brancos. Em relação ao gênero, meninos apresentaram uma probabilidade 64% maior de reprovação, sendo que 1 em cada 10 meninos repetiu de ano em 2018. Além disso, alunos com deficiência têm 59% mais chances de reprovarem que os estudantes sem deficiência.

As reprovações também tendem a crescer de acordo com cada etapa de ensino, sendo maiores no ensino médio, no qual 461.763 abandonaram os bancos escolares. “A reprovação tem sido usada como estratégia de aprendizagem: se o aluno repete, ele irá aprender. Mas os dados mostram que não é verdade. Múltiplas reprovações mais distorção idade-série implicam em abandono”, contextualiza o chefe de educação do Unicef no Brasil, Ítalo Dutra.

“A reprovação não é a melhor das estratégias, o que não significa que o aluno passará pela escola sem aprender. É possível incentivar estratégias ao longo do ano”, defendeu.

Ítalo Dutra e o presidente da Undime, Luiz Miguel Martins Garcia, durante lançamento do curso online Trajetórias de Sucesso Escolar (crédito: Carolina Rivaldo)

 

Variação por território

Quando o assunto é abandono escolar, metade dos alunos que deixaram a escola eram pretos e pardos. No recorte por raça, crianças e adolescentes indígenas também sofrem com o problema e com a distorção idade-série. Enquanto a taxa de abandono para as instituições de ensino públicas municipais e estaduais no Brasil é de 3%, entre estudantes dessa população, ela avança para 6%. Já a distorção idade-série atinge mais de 41% dos indígenas matriculados. Em 2018, 15 mil alunos desse grupo abandonaram os estudos.

Já o atraso escolar atinge aproximadamente 383 mil alunos com deficiência, o correspondente a 48,9% das matrículas. Quase 30 mil deixaram as escolas estaduais e municipais em 2018. Por fim, a região nordeste e norte apresentaram maiores taxas nos três campos: reprovação, abandono e distorção.

“Há variação entre estados, municípios e até escolas da mesma rede, atingindo os alunos de forma desigual. Por isso, a necessidade de um diagnóstico”, alerta Dutra.

Um total de 912 mil alunos deixaram a escola em 2018. O ensino médio é o que mais perde, com 460 mil estudantes tendo evadido. Os dados representam 7% de todas matrículas nessa etapa.

Sobre o atraso escolar, os meninos se apresentaram novamente como os mais afetados. A probabilidade de distorção idade-série é 43% maior entre estudantes do gênero masculino. Além disso, a maior parte das matrículas com atraso (83%) estão nas área  localização urbana. “Lembrando que muitos alunos se deslocam da zona rural para estudar nas áreas urbanas”, explica o porta-voz da Unicef.

Para ajudar a combater esse cenário, a Unicef e a Claro criaram o curso online Trajetórias de Sucesso Escolar. Voltado para gestores de rede, gestores escolares e professores, a formação visa auxiliar os profissionais no diagnóstico, planejamento, adesão e desenvolvimento de estratégias para o enfrentamento à cultura do fracasso escolar.

Os dados do levantamento  podem ser consultados no site Trajetórias de Sucesso Escolar.

Veja mais:
Distorção idade-série é maior entre alunos negros, pobres e de áreas rurais
Novo indicador avaliará desigualdades raciais, de gênero e socioeconômicas em escolas de todo o país

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