Em 13 de julho, comemora-se o Dia Mundial do Rock. Pois as músicas do rock nacional da década de 1980 podem ser utilizadas para se entender as particularidades históricas do Brasil naquela década.

“As letras são uma forma de manifestação cultural que não está desvinculada de seu momento de produção e veiculação. Dessa forma, podem ser utilizadas como documentos que trazem em si elementos que permitem analisar o contexto social, político e econômico de sua produção”, explica o doutor em história social pela Universidade de São Paulo (USP) Daniel Cantinelli Sevillano. O pesquisador é autor da tese “Pro dia nascer feliz? Utopia, distopia e juventude no rock brasileiro da década de 1980”.

De acordo com Sevillano, as letras do rock brasileiro refletem os anseios de uma geração de jovens que cresceu sob a ditadura, e que observava na década de 1980 a possibilidade de uma sociedade menos repressora. “Algumas das letras celebram uma certa noção de liberdade individual, enquanto outras buscam analisar o momento de transição política pelo qual passava o país, e qual deveria – ou poderia – ser o papel daquela juventude na reconstrução da democracia brasileira”, complementa.

O que o rock nacional representou para a juventude daquele período?

Daniel Cantinelli Sevillano: Um canal de comunicação, por meio do qual as bandas podiam ao mesmo tempo expressar os sentimentos de seu público e divulgar opiniões e posicionamentos sobre o que acontecia no país. O rock foi, ao mesmo tempo, um produto de consumo de massa, chancelado pelas grandes gravadoras, e uma forma de crítica contra essa mesma sociedade de consumo.

Em sua tese, você dividiu a década em dois períodos: um de utopia (1981 a 1985) e outro distopia (1986 a 1989). Qual era o contexto político e social do Brasil no primeiro momento?

Sevillano: O primeiro período ficou marcado por um sentimento eufórico frente à possibilidade do fim da ditadura iniciada em 1964. As letras produzidas nesses anos traziam em si um sentimento utópico de que as mudanças necessárias, tanto políticas como sociais, estavam a pleno alcance, e logo a sociedade brasileira seria diferente. A utopia era, então, o fio condutor da sociedade e, em especial, daquela geração de jovens, que já não tinha medo em relação ao amanhã, pois esse mesmo amanhã se apresentava como a certeza de tempos melhores. Algumas músicas lançadas por cantores como Lulu Santos e Leo Jaime e bandas como Kid Abelha e Barão Vermelho nesse período trazem em si essa ideia utópica de liberdade.

Quais músicas e temas aparecem no segundo período?

Sevillano: O segundo período focou na transformação dessa euforia em relação ao futuro em uma desilusão em relação ao próprio presente, já que a realidade trataria de desmistificar o sonho utópico. A distopia presente no discurso e nas ações das bandas refletia a desilusão desse grupo de jovens que celebrara o fim da ditadura, mas que não tinha o que comemorar em termos reais. A mudança almejada por tanto tempo mostrara-se uma promessa sem fim, uma ilusão que o próprio cotidiano tratava de desconstruir. A atitude de confronto que surge com as sucessivas crises do governo Sarney e com o projeto incompleto de redemocratização aparecem em músicas produzidas nesses anos pelos Titãs, Legião Urbana e Plebe Rude.

Por que é importante revistar esse período da nossa história?

Sevillano: O trabalho do historiador não é reconstruir o passado, mas analisá-lo. Em um momento como o atual, no qual muitos pedem a volta de um regime militar, é de importância crucial esclarecer o que foi o golpe de 1964, e como a sociedade brasileira sofreu com o autoritarismo dos que tomaram o poder e lá ficaram por mais de 20 anos. Acredito que sempre será necessário recordar que ditaduras, de qualquer viés ideológico, nunca são a solução para problemas estruturais de qualquer sociedade. Nem é uma solução a vinda de um “messias” que acabará com todos os problemas com um passe de mágica. Ambas as saídas só servem para manter no poder os que lá estão e para exterminar qualquer tipo de pensamento crítico.

Quais músicas você indicaria para os professores trabalharem conteúdos da história do Brasil com os alunos?

Sevillano: O álbum “Cabeça Dinossauro”, lançado em 1986 pela banda paulistana Titãs, pode ser utilizado como um bom ponto de partida para se entender o período inicial do governo Sarney. Dentre as músicas, indico “Polícia”, “Estado violência” e “Igreja”, sendo que cada uma ataca elementos que serviam de base para uma sociedade violenta, controladora e conservadora.

A música “Selvagem”, de “Os Paralamas do Sucesso” (1986) revela uma crítica à própria constituição da sociedade brasileira. Em termos de crítica política, as músicas “Que país é este?”, do Legião Urbana (1987), e “Ideologia” (1988), “Brasil” (1988) e “Burguesia” (1989), do Cazuza, são interessantes pontos de partida para o professor discutir com seus alunos a forma como a cultura pode ser utilizada como crítica aos sistema político, econômico e social brasileiros.

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