Leonardo Valle

O acesso regular à água e saneamento não é uma realidade para dois bilhões de pessoas, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). “O problema é agravado com as alterações climáticas, uso desordenado, desperdício e o crescimento da demanda pelo recurso. Isso provoca um desequilíbrio entre quantidade e qualidade”, contextualiza o engenheiro ambiental e doutor em tecnologia de processos químicos e bioquímicos, Diego Macedo Veneu.

A captação de água da chuva, realizada por meio de um sistema instalado em casas e prédios, pode ser uma alternativa para um uso mais consciente. “Diminuiria a necessidade da utilização da água das estações de tratamento e desafogaria o sistema de abastecimento. Além de evitar enchentes e inundações em períodos de precipitação intensa”, justifica o professor do curso de engenharia ambiental e sanitária da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), Elson Mendonça Felici.

“Esse armazenamento pode ainda proporcionar reserva para períodos de escassez e faz com que o cidadão economize na conta”, complementa Veneu.

A água da chuva, contudo, não é considerada potável, sendo contraindicada para ingestão. “A Portaria de Consolidação no 5 do Ministério da Saúde estabelece que, para ser considerada potável, a água fornecida pelo serviço de abastecimento público deve atender a certos requisitos químicos, físicos e mineralógicos”, diferencia Veneu.  “Mesmo que pareça limpa, ela não tem qualidade garantida”, resume.

Apesar disso, ela pode ser utilizada em atividades que não requerem o uso de água tratada, como rega de jardins e hortas, lavagem de roupas, veículos, vidros, calçadas e pavimentos.

“Outra opção é a utilização em bacias e vasos sanitários. Nesse caso, sugere-se uma desinfecção, com adição de cloro ou derivado”, orienta Veneu. “Cerca de 30% do volume da água potável utilizada em residências poderiam ser substituídos pela água da chuva”, calcula.

Coleta em casa

No sistema de coleta da água da chuva, a captação ocorre no telhado. A água escorre por calhas e condutores até chegar no reservatório. No meio do caminho, há grades e peneiras que filtram resíduos.

“Essa primeira parte leva poluentes e materiais que estavam depositados no telhado, precisando ser descartada. Para isso, é instalado na tubulação o chamado ‘by pass’, que descarta os primeiros 2 mm de chuva para que a sujeira não entre no sistema de captação”, conta Veneu.

O reservatório ainda deve contar com extravasor ou ladrão para evitar transbordamentos, conduzindo a água excedente para uma galeria. Caso ele esteja acima da área de telhado, uma bomba pode ser incorporada ao sistema. “Mas ela encarece o projeto”, lembra o engenheiro ambiental.

O reservatório deve permanecer tampado, ser limpo a cada seis meses e ter estrutura independente. “Ou seja, não poderá ter ligação do sistema de abastecimento de água potável com a de chuva”, ensina o mestre em engenharia civil na área de recursos hídricos e saneamento ambiental, Gabriel Hiromite Yoshino.

Em casas que ainda serão construídas, o investimento no sistema de captação de água pluvial é baixo em relação ao valor total da construção. “Em construções  prontas, são necessárias adaptações, o que acaba onerando um pouco o sistema. O dispositivo mais caro é o reservatório”, informa Yoshino.

Docente do curso de engenharia ambiental e sanitária do Centro Universitário FMU, Luana Souza explica que o tamanho do reservatório dependerá da precipitação pluviométrica anual, ou seja, o volume de água a ser captado no ano. “Ele  só é escolhido após esse cálculo.”

A economia de água gasta no mês, contudo, pode justificar o investimento. A ONU estima que são necessários 110 litros do recurso por pessoa, por dia, para atender todas as necessidades básicas. Segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), no Brasil, o consumo pode chegar a mais de 200 litros per capita. “Em casas com quatro moradores, a instalação do sistema já seria viável financeiramente’, defende Veneu.

Veja mais:
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Crédito da imagem: glenn-specht – iStock

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