Leonardo Valle

No início de 2018, a ONU Meio Ambiente colocou a preservação dos recifes de corais no topo da lista de ameaças ambientais que exigem atenção. Segundo a instituição, três quartos dos recifes de corais em todo o mundo já estão sob ameaça. A gravidade do problema se dá porque grande parte da biodiversidade marinha depende desse espaço para sobreviver.

Em linhas gerais, os corais são animais marinhos que possuem exoesqueletos duros, feitos de calcário. Ao longo dos séculos, os recifes, que são áreas que servem de abrigo para outras espécies, são formados conforme há o acúmulo desses esqueletos. “O coral faz um papel similar ao das árvores no ambiente terrestre, pois criam um ecossistema onde uma série de outros organismos vivem, como peixes, tubarões, estrelas-do-mar, dentre outros”, explica o biólogo e pesquisador do Laboratório de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará (UFC), Marcelo Soares.

No Brasil, esses recifes estão localizados desde a região do Amazonas até o Rio de Janeiro. Os mais ricos e estudados, contudo, situam-se no litoral sul da Bahia. “Seu valor para a sociedade é enorme, pois os corais afetam a pesca e ajudam a proteger a costa, por reduzir a energia das ondas”, complementa.

Impactos locais e globais

Diversos fatores contribuem para que os corais estejam vivendo um momento de risco. Um deles é o aquecimento global, responsável por aumentar os níveis dos oceanos e a temperatura das águas. “Os corais vivem em uma faixa muito estreita de temperatura. O aumento excessivo leva a doenças e morte”, denuncia Soares.

Para completar, há os chamados “impactos locais”, que incluem resíduos, como os combustíveis usados nos barcos; o desmatamento da vegetação no litoral, que faz com que mais sedimentos cheguem aos oceanos; o excesso de lixo marinho e os esgotos da cidade que desembocam nos oceanos. “A quantidade de contaminantes como, fármacos, produtos de higiene pessoal, repelentes de insetos, produtos de cloração e ozonização de águas, hormônios naturais e sintéticos que afetam a saúde dos animais e dos corais está aumentando porque há falta de rede de esgoto ou sistemas de tratamento não eficientes, adverte o pesquisador.

Protetor solar é inimigo

Para completar, um artigo científico publicado na revista Archives of Environmental Contamination and Toxicology, em 2016, atentou sobre o impacto nocivo da oxibenzona – substância utilizada em protetores solares – na capacidade dos corais se reproduzirem e se desenvolverem. Segundo a publicação, 14 mil toneladas do produto chegam aos recifes de todo o mundo, trazidos por banhistas.

“Os protetores são levados pelas correntes e podem chegar tanto nos corais próximos à costa como naqueles localizados mais profundamente”, descreve o doutor em química e pesquisador do Labomar, Rivelino Martins Cavalcante. “Precisaria existir um esforço da indústria de cosméticos em desenvolver e comercializar produtos sem substâncias que afetem não apenas os corais, mas o sistema marinho como um todo. Falta boa vontade, já que há possibilidades de substituição”, lamenta

Os consumidores podem checar nos rótulos se os produtos utilizados levam a oxibenzona. Além disso, uma reportagem publicada pela ONU Meio Ambiente apontou que algumas empresas de cosméticos já oferecem produtos mais sustentáveis, que substituem a substância por óxido de zinco ou dióxido de titânio. “A divulgação desse tipo de pesquisa é positiva porque gera pressão sobre os governos e sobre a indústria, obrigando-os a viabilizarem soluções”, finaliza.

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