Leonardo Valle

“A terra é plana”. “A ditadura brasileira não torturou”. “O Holocausto não existiu”. O Brasil e o mundo vivem um momento de negação de fatos com evidências científicas e históricas, movimento denominado “negacionismo”.

“Trata-se de uma corrente de opinião, com base em ideologias extremistas, que nega as evidências documentais, científicas e consensos historiográficos mínimos. Seus três principais campos são a história, a geografia e a biologia, nesse caso, sobretudo o evolucionismo”, descreve o professor do departamento de história da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do fenômeno, Marcos Napolitano.

“No caso da história, o ataque se dá em torno de eventos sensíveis, que geralmente envolvem guerra e genocídios, como Holocausto judeu, ditaduras militares e escravidão africana”, complementa.

O negacionismo, contudo, não é exatamente recente. Seu início se deu na década de 60. Negacionistas rejeitavam a tese de que havia uma política sistemática de extermínio de judeus pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial, além de questionar a existência de campos de extermínio.

Memorial no Gueto de Varsóvia, na Polônia. Um dos marcos do Holocausto (crédito: slowcentury – iStock)

 

Segundo Napolitano, a negação de fatos científicos tem um viés político. “Trata-se de uma forma de militância extremista, geralmente ligada à extrema direita, que usa isso para desqualificar valores que lhes são opostos, como a democracia, direitos humanos e justiça social. Além disso, servem para disseminar a confusão de opiniões sobre temas”, destaca.

“Há também o negacionismo científico (terraplanismo, criacionismo) que é uma forma de afirmar valores religiosos contra evidências científicas”, acrescenta.

Fenômeno digital

Outro fenômeno similar é o chamado revisionismo, que visa “recontar” fatos históricos.  “Existe uma parte saudável para o debate, que se define como uma atitude científica crítica, que diante de novas evidências, provas e argumentos, revisa uma tese ou explicação clássica para um acontecimento histórico, social ou natural’, explica.

“Mas também há um revisionismo que parte de intenções puramente ideológicas, que se apropria de debates sérios no campo da ciência, e, descontextualizando-os, procura questionar uma determinada crítica social ou demanda por reconhecimento de direitos históricos”, informa.

Apesar de não serem recentes, tanto o negacionismo quanto o revisionismo ganharam espaço com o aumento da importância das redes sociais.  “À medida em que esses fenômenos não têm espaço nas instituições reconhecidas e legítimas – imprensa, universidade, instituições culturais, etc –, eles se afirmam em meios de comunicação que operam em nichos específicos e não tem crivo social, como as redes sociais”, analisa.

A difusão de informações falsas e em larga escala, por sua vez, acaba impactando toda a sociedade. “Além de disseminar a ignorância, pode alimentar setores autoritários e fundamentalistas que são uma ameaça à ordem democrática”, resume o especialista.

De acordo com Napolitano, combater os dois fenômenos, contudo, não é uma tarefa simples. “É muito difícil, até porque eles se combinam com fake news e são blindados contra argumentos racionais”, lamenta. “Mas temos que evitar danos maiores, esclarecendo públicos potenciais mais vulneráveis a este tipo de desinformação”, finaliza.

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