Flauta, trompete, trombone, saxofone e bumbo. Esses são alguns dos instrumentos que compõem as bandas marciais, uma atividade que ainda hoje se mantêm viva em algumas escolas públicas do país. Esse é o caso da EE Clovis Borges Miguel, em Serra (ES), que possui uma banda desde 2008. As aulas e ensaios acontecem pela manhã e à tarde, no contraturno, e aos sábados.

“A atividade estimula o intelecto dos alunos, que ainda podem vivenciar disciplina, trabalho em grupo e um espaço de socialização e amizade”, explica o regente, Vinicius Sarmento.

A criação de um espírito de comunidade também é um dos benefícios das bandas escolares apontado pelo docente da EE Professor Armando Gaban”, de Osasco (SP), José Rodrigues. Ele é regente da banda da escola, em atividade desde 1996. Seu objetivo era afastar os jovens da violência das ruas.

Banda da EE Professor Armando Gaban, em atividade desde 1996 (crédito: divulgação)

 

“Os alunos sentem falta de grupos onde eles possam ser inseridos. A música tem a capacidade de oferecer um local de interação entre pessoas de faixa etária diferentes”, destaca.

Iniciativas como essa também podem representar um ambiente de acolhimento para questões pessoais trazidas pelos estudantes. “Já tivemos um estudante que se assumiu homossexual, outros com depressão e um que lidou com a tentativa de suicídio de um parente. Eles tiveram apoio”, afirma Sarmento.

Para completar, novas habilidades são desenvolvidas. “Qualquer aluno pode aprender. Há a possibilidade de surgir talentos, seja na música ou na vida”, defende Rodrigues.

Escolas unidas

Uma das dificuldades para a existência das bandas marciais é a falta de verbas. Para driblar o problema, o professor e regente da cidade de Viamão (RS), Ewerton Souza, criou uma banda comunitária reunindo alunos de 12 escolas públicas, entre municipais e estaduais. O projeto atende crianças e jovens de 7 a 22 anos.

Em atividade desde novembro de 2016, a iniciativa atende 60 estudantes, divididos em quatro categorias técnicas: percussão melódica, percussão marcial infantil, percussão marcial infantojuvenil e banda de percussão rudimentar.

“Trabalhamos a parte teórica, instrumentalização, dança e pelotão cívico com os jovens”, assinala o educador. “A coordenação envolve, ainda, cinco mães e uma associação de apoio formada por 20 pais, regente e instrutora”, completa.

Há um ano na banda comunitária, Cailãine Luísa Conceição dos Santos, de 9 anos, integra o pelotão de bandeiras. “Decidi participar por gostar de música. Aprendi muito sobre amizade e confiança”, compartilha.

Seu irmão, Nathan Conceição Dornella, de 16 anos, toca bumbo. “Quando estou na raia em concentração, tenho a certeza que todas as dificuldades que a banda tem conseguirão ser superadas”, descreve.

Desafios

As dificuldades, aliás, são muitas. Reforma de Instrumentos, fardamento dos integrantes e contratação de transporte para as apresentações são algumas das demandas financeiras.

“Já tivemos mais de 100 integrantes, mas temos problemas para conseguir transporte. Hoje, mantenho a banda marcial com cerca de 45 componentes, do 6º ano do ensino fundamental até o 3º ano do ensino médio. Esse é o número adequado para um ônibus”, confessa Rodrigues.

“Até hoje não temos um espaço para guardar instrumentos, fardamentos, troféus e medalhas. Moro em frente à escola e tudo fica guardado na minha casa”, lamenta.

No caso da cidade de Serra, a escola faz parte do projeto Banda nas Escolas, uma parceria entre a Secretaria de Estado da Educação (Sedu), a Faculdade de Música do Espírito Santo (Fames) e a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes).

Os regentes são profissionais formados em música e graduandos. Além disso, há monitores que ajudam nos ensaios. “Uma banda necessita de verba e profissionais qualificados. No nosso caso, o recurso permite que alguns alunos, que se destacam, tenham bolsa”, conta. 

“Desafio é ‘encantar’ os secundaristas”, diz regente da banda da EE Clovis Borges Miguel (crédito: divulgação)

 

Para Sarmento outro desafio é “encantar” os secundaristas para que eles se interessem pelo projeto. “Fazemos apresentações nos recreios, compartilhamos nossas viagens para apresentações e os resultados”, indica.

“Um levantamento que fizemos esse ano mostrou que 88% dos estudantes que saíram da banda e prestaram música passaram direto no vestibular. Outros 7% foram aprovados no ano seguinte”, revela.

Ainda segundo ele, o repertório é importante para motivar os alunos. “Precisa ser moderno, mas sem músicas banais”, recomenda.

A banda da E.E. Professor Armando Gaban, por exemplo, prioriza clássicos da música brasileira, que passam de “Asa Branca”, “Meu Xodó”, “Aquarela do Brasil” e “Anunciação” até “Ana Júlia”, do Los Hermanos. “O foco na música brasileira deu uma identidade para nós”, finaliza Rodrigues.

Veja mais:
Participar do coral na escola estimula socialização e inclusão
Os desafios do ensino de música nas escolas
Programa NET Educação – Educador monta grupo de percussão a partir de aulas de iniciação musical

Crédito das imagens principais: divulgação

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